domingo, novembro 16, 2008

sábado, novembro 15, 2008

O menino balão em forma de coração

O menino balão em forma de coração vivia no ar, amarrado por cordas brancas elásticas e aveludas aos seus amigos que passeavam pela Terra.
Certo dia fartou-se de ser puxado para um e para outro lado e começou a cortar as cordas, decidindo-se apenas por um amigo.
Ontem, quando cortou a penúltima corda, voou com o amigo eleito pelo céu fora.

quarta-feira, outubro 01, 2008

Doce doze

Ele voltou passados doze dias.
Não me contou até agora o que fez durante esse tempo.
Mas sinto-o mudado.
Sempre pensei que se olhasse de uma certa maneira para os seus olhos, ia conseguir ouvir o que dizia aquela alma. Falar-lhe directamente com a minha.
Substituir os lábios por uma conversa que nós próprios desconheceríamos.
Certa vez empenhamos-nos seriamente nessa empresa.
Acordámos doze anos depois... e resolvemos então começar a falar.

domingo, setembro 21, 2008

Cidade

Deixei-o ficar onde estava.
Não insisti.
Percebi que ele ia ficar ali o tempo que achava que devia ficar.
Limitei-me a tirar-lhe a flor da mão.
Ele é um símbolo de vida e não fazia sentido estar a amparar uma flor que tinha perdido a sua...
Lancei-me outra vez nas ruas da cidade.
Desta vez sem objectivo.
Apenas vendo-a como objecto de prazer e a descobri-la como objecto do meu projecto.
Eu... que tinha visto até hoje a cidade apenas como um cenário passivo para actores desconhecidos e em número infinito, descobri que tenho em mim uma vontade indómita de a abraçar.
De ser um demiurgo moderado que ama o seu espaço pelo que é e, sobretudo, pelo que pode vir a ser.
Consigo vê-la do céu e do chão ao mesmo tempo.
Misturo os traçados com os ambientes que me envolvem e deixo que sejam os sons a guiar-me.
Os cheiros e as cores também.
Eu vou mudar a cidade que trago em mim.

quinta-feira, setembro 18, 2008

A última vez que o perdi

Perdi-o.
Consegui acompanhá-lo durante todo o dia.
Sempre à distância.
Acabei por conhecer uma cidade que não conhecia e deixei-me encantar por ela.
Um encantamento que me custa agora uma dor sem perdão.
Perdi-o no final de tarde buliçoso da cidade e passei o resto do dia e da noite à procura dele.
Finalmente encontrei-o.
Sentado no chão, encostado a um muro a segurar uma flor gigante.
Já sem vida.

terça-feira, setembro 16, 2008

As flores dos olhos

Estive quase para o acordar. Se é que estava a dormir...
A verdade é que ele estavam com os olhos bem fechados, deitado, imóvel, como se estivesse a olhar para o céu sem precisar de o ver.
Eu sei que as lágrimas são sempre salgadas. Surjam elas por dor ou por felicidade.
Não me devia preocupar, portanto...
Mas a cara dele estava já tão marcada pelo carreiro de lágrimas secas e pelo brilho da luz, ainda que pouca, reflectida nas que iam escorrendo...
Antes de se deitar escreveu uma notas no seu bloco de capas pretas.
Foi a primeira vez que o fez. Antes de se deitar.
Agora, depois ter visto o que vi de manhã, desconfio que deve ter escrito uma fórmula mágica qualquer que transformou o tecto do quarto em céu.
Ao redor dos seus olhos e ao longo dos carreiros das lágrimas, estavam coladas centenas de estrelas minúsculas.
Mas o efeito de flor que causavam não escondia o seu olhar.
Hoje tenho de o acompanhar de perto.

sexta-feira, setembro 12, 2008

Para apagar, é preciso escrever.

Mais cedo ou mais tarde... era inevitável que acontecesse? Era evitável que acontecesse?
A verdade é que aconteceu.
Ele saiu com aquele nó de algodão no peito a sentir e sem pensar, que ia correr o mundo a pé.
Não o fez, claro.
O mundo é pequeno de mais para guardar todas as palavras que ele ia ter que dizer se dissesse o que devia dizer...
Limitou-se a ir de novo à praia da pegadas azuis e multiplicou-se vezes sem fim.
Reuniu aquelas criaturas iguais a ele e mandou-os numa nova missão: a ouvir música, deviam caminhar em conjunto por todo o tipo de caminhos e estradas de modo a que do céu se visse que era o nome dela que andavam a escrever.

segunda-feira, setembro 08, 2008

A rapariga de papel

Pegou num lápis e numa folha de papel com uma gana tal, que parecia que ia criar um mundo novo. Como se este já não lhe servisse.
Ou não tivesse remédio.
Engano.
Aquele ímpeto tinha outra razão de ser.
Não escreveu, não desenhou, não cortou o papel nem fez qualquer construção.
Ficou a olhar para a folha, branca, a imaginar um pátio.
Um mundo só dele.
Nesse pátio ela estava numa das sombras, protegida do Sol.
Atrás dela, estava ele a segredar-lhe:

terça-feira, agosto 19, 2008

Redundante




























isto não é um coração. é uma morada.

sexta-feira, agosto 15, 2008

Irreal





























só o medo é real. o medo.

sexta-feira, agosto 08, 2008

Escrever "amizade" - II

Voltaram juntos à praia dos livros de areia.
Estava diferente outra vez.
Só o Sol era o mesmo, embora brilhasse de forma diferente.
Os livros eram gigantes e já não tinham apenas uma letra: tinham histórias completas, com capítulos infindáveis. Do tamanho das vidas de quem os escreveu.
Sentaram-se num livro com capas de pedra branca e estiveram horas a olhar para o mar... mas faltava-lhe a água.
Mais parecia que tinham uma paisagem urbana formada por enormes rochas em forma de edifícios. Cada uma podia ser a metáfora de um qualquer tipo de edifício. A mais alta, uma igreja. Aquelas mais juntas e alinhadas, casas. Aquela mais próxima, informe, um qualquer monumento ou museu.
Esperaram que o Sol baixasse para que as sombras das rochas se agigantassem. Quando ele sentiu que elas já eram do tamanho daquilo que o ensombra, começou a escrever com as suas lágrimas um título na capa do livro onde se tinham sentado, mas ela interrompeu-o. Achou que deviam usar um escopro para que esse título ficasse gravado de forma indelével.
- Mas se o escrever-mos com as minhas lágrimas, fica igualmente gravado na nossa memória...
- Se o escrevermos com um abraço, também.
- Seja.




quarta-feira, julho 30, 2008

O último voo

Não foi como todos os outros.
Claro.
São sempre todos diferentes.
Diferentes as paisagens que ele vê do céu, diferente o ar que respira, diferente o aroma das árvores quando as atravessa com a sua nave.
Mas desta vez foi diferente porque a levou com ele para que ela lhe mostrasse como se domina o mundo quando, na verdade, é ele que nos domina.
Para lhe mostrar que a sua voz, naquele vazio do céu, é a única que pode ouvir.
Cristalina como nunca a ouviu.
Para lhe mostrar que, sozinha naquele vazio do céu, tem a companhia de todos quantos vivem no seu coração.
No último voo, nem sequer levou a nave.
Foi um abraço que os levou.

segunda-feira, julho 28, 2008

...

nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
nihil silentio utilius
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sexta-feira, julho 25, 2008

O nome de um dia

Todos os dias têm um nome que parece ter resultado de uma fórmula matemática que nos faz lembrar que são uma sequência linear.
Desses nomes, houve um que desapareceu e ninguém deu conta.
Continuam a ser os sete de sempre.
Mas houve um que ficou sem nome, porque ele não tem na sua memória a recordação que deveria ter.
Este dia passou a chamar-se esquecimento para que não se chamasse dor.

terça-feira, julho 22, 2008

l'objet trouvé

Cansado.
Mais uma vez... cansado.
Chegou a casa com uma flor na mão e esteve entretido durante algum tempo a mudar-lhe a cor da pétalas. Correu o todo arco íris. Inventou cores que ainda não foram vistas. Tonalidades que não imaginava que pudessem existir.
A dada altura parecia que não estava a segurar uma flor.
Também não a estava a oferecer.
Mais parecia que estava à espera que ela se transformasse em alguém.
Que se tranformasse nele próprio vezes sem conta.
Ou em alguém que lhe viesse dar o abraço que queria naquele momento.
Ou num balão gigante que o levasse daqui.

domingo, julho 20, 2008

all will be full of love (epílogo)

Chegou às paredes dos edifícios de uma forma que pôs artistas, sociólogos, psicólogos a discutir sobre os limites da noção de arte urbana.
Os grafitos que antes davam conta dos amores de apaixonados alguns metros ao redor das escolas, foram suplantados por materiais de construção que permitiam inscrever nas empenas do edifícios, poemas inteiros por toda a cidade.
Graças a células fotovoltaicas e peças de porcelana com comportamentos mecânicos diferenciados consoante a temperatura e a incidência do Sol, a mesma parede podia revelar quase um livro inteiro de poemas.
As ruas passaram a ser uma espécie de bibliotecas especializadas em poesia, também ela especializada: no amor.
A última vez que o vi, ele estava divido.
Por um lado, feliz. Porque um gesto tão simples teve repercussões bem ao jeito de um "efeito borboleta". E que melhor expressão para descrever esta espécie de demência que chegou a todos e a todo o lado.
Por outro, triste. Havia sintomas claros de banalização do seu gesto. Ou se quiserem, as palavras passaram a valer -em muitos casos- mais do que os actos.
Ontem chegou mesmo a irritar-se.
Foi ao restaurante onde mais vezes vai. Pode dizer-se até que é um cliente habitual.
Mas esteve mais de uma hora à espera da sopa, porque o cozinheiro não deixava sair da cozinha um único prato de sopa que não fosse passada pela varinha mágica e tivesse por cima um poema escrito com letrinhas de massa.
Uma hora!

quarta-feira, julho 16, 2008

all will be full of love (2.º acto)

Foram necessários alguns ajustes às falsas declarações de amor para que a cidade ­—pelo menos, aquela parte da cidade que frequenta assiduamente o sistema de transportes públicos— reagisse em termos comparáveis à do condutor do autocarro. Da linha 38, soube-o depois.

Não se sabe agora —mas saber-se-á mais tarde— que no final do ano, o dito condutor foi laureado com o prémio simpatia da câmara municipal onde trabalha e que foi a primeira vez que tal aconteceu. Nunca um funcionário da rede de transportes públicos tinha recebido esse, ou qualquer outro tipo de prémio.

As cartas deixaram de ser assinadas. Apenas dirigidas aos nomes que ia ouvindo chamar nas viagens que fazia nos autocarros. A estratégia passou a ser mais próxima da que usou com a carta para o condutor: declarações de amor, é certo, mas também manifestações de embaraço por parte de quem escrevia sem conseguir identificar-se. Em comum tinham todas algumas referências que davam a entender que tanto o que amava como aquele que era amado andaria pela casa dos 40 a 50 anos. Não só porque são quem mais usa os autocarros, mas sobretudo porque aquelas cartas não podia ser entendidas como uma espécie de "amizade a arder", como acontece em idades mais jovens. Algumas descrições físicas. Algumas manifestações do prazer que é a maneira de estar do amado ou da amada. Algumas referências a perfumes, outras a cores, algumas a sorrisos, outras ainda a ares tristes... Não se pense, pois, que isto foi tarefa que ele tenha realizado sem empenho. Pelo contrário: tornou-se um verdadeiro especialista na problemática dos desejos amorosos nessas idades. Observa incansavelmente todos os parceiros de viagem de autocarro que lhe possam servir de inspiração, sem que se deixe notar a sua intenção. Claro.

Ora, com essas alterações, começou finalmente a obter os resultados que pretendia.

As conversas nos autocarros mudaram. As pessoas passaram a observar-se de outra maneira. Algumas iniciavam conversas que se tornavam longas, quando o que pretendiam era visivelmente perguntar apenas: “és tu?”... "foste tu?"... "sou eu?"

Entretanto o impacto desta empresa tomou proporções que ele deixou de poder controlar.

Se é que algum dia ele as desejou controlar.

Primeiro aconteceu nos jornais locais. Artigos de opinião de autores que antes ninguém lia, passaram a ser lidos porque tentavam criar filosofias sobre o que estaria a acontecer na cidade, querendo tornar concreto algo que, afinal de contas, nem sequer existia, porque nem verdade era.

Depois foram os noticiários das televisões. Entrevistas a psicólogos, terapeutas do amor e amorólogos. Todo o tipo de especialista das ciências sociais e humanas e nunca um político.

Meses mais tarde, o Instituto Nacional de Estatística anunciou um protocolo com os Correios Nacionais, seguido de um avultado investimento em máquinas que detectavam odores. Isto, porque à evidência de ter aumentado o volume de cartas em percentagens inéditas, pretendeu-se quantificar aquelas que iam perfumadas para os seus destinos, na crença de que essas seriam mais de amor do que as outras. Certo, certo, é que já não é ele que as escreve...

segunda-feira, julho 07, 2008

all will be full of love (1.º acto)

Hoje ouviu vezes sem conta uma canção belíssima, de uma cantora islandesa belíssima, com uma voz belíssima.
De cada vez que ouvia a música os olhos dele brilhavam em tonalidade diferentes de castanho e verde. A dada altura esse brilho começou a misturar-se com aquele sorriso de quem se está a preparar para mais uma das travessuras a que já nos habituou.
Quando a primeira lágrima caiu na mesa pegou num bloco de folhas e, armado de uma caneta como se fosse a arma de amor mais eficaz, virou-se para mim e disse-me: "bem... vou infiltrar-me no sistema de transportes urbanos. Vou começar por aí."
Escreveu a bom escrever uma onze folhas.
Na verdade, os textos eram todos iguais e eram cartas de amor. Só uma era diferente.
As restantes eram cópias nas quais apenas mudava a primeira frase:

"Querida Júlia, sei agora que o nosso encontro não pode ter sido o último."

"Querido Mário...; Querida Amália...; Querida Celeste...; Querida Aurélia..."

O resto do texto não variava, tendo apenas cuidado com os pronomes, os artigos e o sexo:

"E venho dar-te razão da forma mais honesta que posso. Escrevendo-o. O meu coração não bate da mesma forma quando estou longe de ti e isso não tem a ver com a minha idade ou com a tua, como ontem chegamos a dizer. Quarenta e cinco anos, são suficientes para conhecer o meu corpo e a minha alma e me darem a segurança necessária para te dizer que é por amor que quero estar ao teu lado. Sempre."

Antes de sair de casa guardou uma das dez cartas num envelope e endereçou-o da seguinte forma: "Por favor, entregue este envelope ao condutor deste autocarro".
Nesse envelope ia uma falsa declaração de amor escrita por uma jovem polaca que vivia em Portugal desde os dois anos de idade. Uma carta que dava conta de uma paixão que foi crescendo ao longo de anos, num autocarro que fazia o mesmo percurso todos os dias, dedicada ao condutor "mais bonito e simpático" da rede de transportes públicos da cidade.
Essa carta não estava assinada.
Depois... Bem, depois foi vê-lo sair de casa a correr com o envelope e as outras dez cartas na mão para apanhar o primeiro autocarro que passasse naquela paragem.
Antes de mudar de autocarro -e sem que alguém desse conta- largou o envelope no banco atrás do condutor.
As outras dez falsas cartas de amor foi-as largando nos bancos de diferentes autocarros de diferentes percursos, abertas de forma a que se visse o nome a quem estavam dedicadas.
No dia seguinte apanhou o autocarro que tinha apanhado em primeiro lugar no dia anterior.
Como estava feliz e perfumado aquele condutor!
Como estava simpático para todas as jovens louras e ruivas de olhos azuis ou verdes!

sexta-feira, julho 04, 2008

o mundo escuro

Branco.
Pintou-o todo de branco sem deixar escapar qualquer detalhe.
As paredes, o chão, o tecto.
Tudo.
Tirou até a porta e os aros para preencher o vão com tijolos bem rebocados.
O mesmo com a janela.
Arrancou fios e interruptores.
Expulsou a mobília toda.
Tudo branco.
Tudo pintado de branco.
Tudo escuro, no entanto.
Fechado no quarto, sem luz, todo aquele esforço não serviu para que a luz inundasse o espaço.
Serviu apenas para que ele fosse o único a saber a cor do quarto.
Quem conseguir lá entrar, não saberá qual é a cor.
A não ser que lhe perguntem... e dêem crédito à sua palavra.
E ele não se tenha esquecido da cor.

quarta-feira, julho 02, 2008

un jour de mes beaux jours

Há uma semana atrás, ele desafiou-me para passear com ele. Disse-me que me ia levar ao sítio onde nasceu. Não só porque tinha saudades, mas porque que queria partilhar comigo um dos seus maiores segredos. Impôs-me apenas duas condições: que eu deixasse crescer a barba e fosse de chinelos.
Fomos ontem.
Só soube para onde íamos alguns minutos antes de partirmos.
Eu, de barba e chinelos.
Ele, com a imagem de sempre, mas com um livro na mão.

- Então... onde é? Onde vamos?
- Vamos a uma praia, neste livro. Vamos encontrar-nos com duas pessoas por quem tenho o maior respeito. É normal estarem a dialogar. Sempre que estive com elas, estavam a dialogar. Quase sempre sobre arquitectura. Nunca as interrompi. Por isso te peço que também não o faças. Limita-te a acompanhá-los. Como verás, é uma praia lindíssima. Um daqueles lugares que jamais te esquecerás.
- E tem nome, o lugar onde fica essa praia?
- Tem o nome que lhe quiseres dar, mas é conhecido por "Eupalinos ou l'Architect". Mas eu vou levar-te directamente para a praia, se não te importas. Afinal de contas, é isso que te quero mostrar. O sítio onde nasci....
- E porquê a barba e os chinelos?
- Porque todos usam barba e chinelos nesse lugar... Chegámos:

...

SOCRATE
L’adolescence est singulièrement située au milieu des chemins... Un jour de mes beaux jours, mon cher PHèDRE, j’ai connu une étrange hésitation entre mes âmes. Le hasard, dans mes mains, vint placer l’objet du monde le plus ambigu. Et les réflexions infinies qu’il me fit faire, pouvaient aussi bien me conduire à ce philosophe que je fus, qu’à l’artiste que je n’ai pas été...


PHÈDRE
C’est un objet qui t’a sollicité si diversement ?


SOCRATE
Oui. Un pauvre objet, une certaine chose que j’ai trouvée, en me promenant. Elle fut l’origine d’une pensée qui se divisait d’ellemême entre le construire et le connaître.


PHÈDRE
Merveilleux objet! Objet comparable à ce coffret de Pandore où tous les biens et tous les maux étaient ensemble contenus!... Faismoi voir cet objet, comme le grand Homère nous fait admirer le bouclier du fils de Pélée!


SOCRATE
Tu penses bien qu’il est indescriptible... Son importance est inséparable de l’embarras qu’il me causa.


PHÈDRE
Explique-toi plus abondamment.


SOCRATE
Eh bien, PHèDRE, voici ce qu’il en fut: je marchais sur le bord même de la mer, je suivais une plage sans fin... Ce n’est pas un rêve que je te raconte. J’allais je ne sais où, trop plein de vie, à demi enivré par ma jeunesse. L’air, délicieusement rude et pur, pesant sur mon visage et sur mes membres, m’opposait un héros impalpable qu’il fallait vaincre pour avancer. Et cette résistance toujours repoussée faisait de moi-même, à chaque pas, un héros imaginaire, victorieux du vent, et riche de forces toujours renaissantes, toujours égales à la puissance de l’invisible adversaire... C’est là précisément la jeunesse. Je foulais fortement le bord sinueux, durci et rebattu par le flot. Toutes choses, autour de moi, étaient simples et pures : le ciel, le sable, l’eau. Je regardais venir du large ces grandes formes qui semblent courir depuis les rives de Libye, transportant leurs sommets étincelants, leurs creuses vallées, leur implacable énergie, de l’Afrique jusqu’à l’Attique, sur l’immense étendue liquide. Elles trouvent enfin leur obstacle, et le socle même de l’Hellas; elles se rompent sur cette base sous-marine; elles reculent en désordre vers l’origine de leur durée. Les vagues, à ce point, détruites et confondues, mais ressaisies par celles qui les suivent, on dirait que les figures de l’onde se combattent. Les gouttes innombrables brisent leurs chaînes, une poudre étincelante s’élève. On voit de blancs cavaliers sauter par-delà eux-mêmes, et tous ces envoyés de la mer inépuisable périr et reparaître, avec un tumulte monotone, sur une pente molle et presque imperceptible, que tout leur emportement, quoique venu de l’extrême horizon, jamais toutefois ne saurait gravir... Ici, l’écume, jetée au plus loin par le flot le plus haut, forme des tas jaunâtres et irisés qui crèvent au soleil, ou que le vent chasse et disperse, le plus drôlement du monde, comme bêtes épouvantées par le bond brusque de la mer. Mais moi, je jouissais de l’écume naissante et vierge... Elle est d’une douceur étrange, au contact. C’est un lait tout tiède, et aéré, qui vient avec une violence voluptueuse, inonde les pieds nus, les abreuve, les dépasse, et redescend sur eux, en gémissant d’une voix qui abandonne le rivage et se retire en elle-même; cependant que l’humaine statue, présente et vivante, s’enfonce un peu plus dans le sable qui l’entraîne; et cependant que l’âme s’abandonne à cette musique si puissante et si fine, s’apaise, et la suit éternellement.


PHÈDRE

Tu me fais revivre. O langage chargé de sel, et paroles véritablement marines!


SOCRATE
Je me suis laissé parler... Nous avons l’éternité pour discourir sur le temps. Nous sommes ici pour épuiser nos esprits, à la manière des Danaïdes.


PHÈDRE
L’objet ?


SOCRATE
L’objet gît sur le bord où je marchais, où je me suis arrêté, où je t’ai parlé longuement d’un spectacle que tu connais aussi bien que moi, mais qui, rappelé dans ce lieu, emprunte une sorte de nouveauté de ce fait qu’il est à jamais disparu. Attends donc, et dans quelques mots, je vais trouver ce que je ne cherchais pas.


PHÈDRE
Nous sommes bien toujours sur le rivage de la mer?


SOCRATE
Nécessairement. Cette frontière de Neptune et de la Terre, toujours disputée par les divinités rivales, est le lieu du commerce le plus funèbre, le plus incessant. Ce que rejette la mer, ce que la terre ne sait pas retenir, les épaves énigmatiques ; les membres affreux des navires disloqués, aussi noirs que le charbon, et tels que si les eaux salées les avaient brûlés; les charognes horriblement becquetées, et toutes lissées par les flots; les herbages élastiques arrachés par les tempêtes aux pâtis transparents des troupeaux de Protée; les monstres dégonflés, aux couleurs froides et mourantes ; toutes les choses enfin que la fortune livre aux fureurs littorales, et au litige sans issue de l’onde avec le rivage, sont là portées et déportées; élevées, rabaissées; prises, perdues, reprises selon l’heure et le jour; tristes témoins de l’indifférence des destinées, ignobles trésors, et les jouets d’un échange perpétuel comme il est stationnaire...


PHÈDRE
Et c’est là que tu as trouvé?


SOCRATE
Là même. J’ai trouvé une de ces choses rejetées par la mer; une chose blanche, et de la plus pure blancheur; polie, et dure, et douce, et légère. Elle brillait au soleil, sur le sable léché, qui est sombre, et semé d’étincelles. Je la pris; je soufflai sur elle; je la frottai sur mon manteau, et sa forme singulière arrêta toutes mes autres pensées. Qui t’a faite? pensai-je. Tu ne ressembles à rien, et pourtant tu n’es pas informe. Es-tu le jeu de la nature, ô privée de nom, et arrivée à moi, de par les dieux, au milieu des immondices que la mer a répudiées cette nuit?


PHÈDRE
De quelle grandeur était cet objet?


SOCRATE
Gros à peu près comme mon poing.


PHÈDRE
Et de quelle matière?


SOCRATE
De la même matière que sa forme: matière à doutes. C’était peutêtre un ossement de poisson bizarrement usé par le frottement du sable fin sous les eaux? Ou de l’ivoire taillé pour je ne sais quel usage, par un artisan d’au delà les mers? Qui sait?... Divinité, peut-être, périe avec le même vaisseau qu’elle était faite pour préserver de sa perte? Mais qui donc était l’auteur de ceci? Futce le mortel obéissant à une idée, qui, de ses propres mains poursuivant un but étranger à la matière qu’il attaque, gratte, retranche, ou rejoint; s’arrête et juge; et se sépare enfin de son ouvrage, — quelque chose lui disant que l’ouvrage est achevé?... Ou bien, n’était-ce pas l’œuvre d’un corps vivant, qui, sans le savoir, travaille de sa propre substance, et se forme aveuglément ses organes et ses armures, sa coque, ses os, ses défenses; faisant participer sa nourriture, puisée autour de lui, à la construction mystérieuse qui lui assure quelque durée?

Mais, peut-être, ce n’était que le fruit d’un temps infini... Moyennant l’éternel travail des ondes marines, le fragment d’une roche, à force d’être roulé et heurté de toutes parts, si la roche est d’une matière inégalement dure, et ne risque à la longue de s’arrondir, peut bien prendre quelque apparence remarquable. Il n’est pas entièrement impossible, un morceau de marbre ou de pierre tout informe étant confié à l’agitation permanente des eaux, qu’il en soit retiré quelque jour, par un hasard d’une autre espèce, et qu’il affecte maintenant la ressemblance d’Apollon. Je veux dire que le pêcheur qui a quelque idée de cette face divine, le reconnaîtra sur ce marbre tiré des eaux ; mais quant à la chose elle-même, le visage sacré lui est une forme passagère d’entre la famille des formes que l’action des mers lui doit imposer. Les siècles ne coûtant rien, qui en dispose, change ce qu’il veut en ce qu’il veut.

...




segunda-feira, junho 30, 2008

Desenhos sem tempo

As gotas das lágrimas juntaram-se às gotas de suor.
Desta vez não o vi preocupado em aproveitá-las para escrever o que quer que fosse.
Umas, caiam nas folhas de papel espalhadas no chão, onde mais tarde desenhou balões em forma de flores, agarrados às mãos de bonecos por fios finos transparentes, tão transparentes quanto as gotas que lhes deram vida.
Sem tempo.
Outras, caiam no corpo dela, onde se apressava a desenhar espirais para que o tempo repetisse aquele momento.
Sem fim.

domingo, junho 29, 2008

Utopia, 15:45 - [3º Acto + Epílogo]

Ele foi então ver sozinho que utopia era aquela.
Sala após sala, muitas imagens se esforçavam por mostrar algo de irreal mas, afinal de contas, tudo o que mostravam era pouco mais do que a realidade.
Todos nós sabemos que a "utopia" é o "lugar" que os artistas -arquitectos incluídos- mais apreciam para realizar as suas ideias. No entanto, sala após sala, não havia mais do que registos de tudo quanto nos envolve nas nossas cidades, o que se tornou num bom pretexto para que os passos dele fossem dados ao ritmo certo do tempo da leitura de um pequeno texto.
Estranha, era a primeira sala, com os edifícios de arroz, esparguete e tagliatelle.
Estranho, também, foi que numa das salas estava uma mota em modo de descanso.
Parecia estar ali para dar uma certa tonalidade àquele contexto. Talvez para nos chamar à realidade e fazer com que as imagens ali penduradas conseguissem ter algum estatuto de irrealidade.
A verdade é que a mota passou a persegui-lo durante o resto da visita, obrigando-o a acelerar o passo: ela estava a chegar ao fim do texto.
Quando ele voltou ao corredor principal, enorme, ela estava no outro extremo a fechar o moleskine.
A vontade de chegar perto dela o mais rápido possível era tanta, que quase montou a mota...
Mas eles dividiram o trajecto.
E a mota ficou sossegada.
Aliás, voltou para a sua sala.

- Gostei muito do texto. Sinceramente. Faz-nos pensar em muitas coisas. Mas a rapariga de que falas aqui não sou eu! É pena!
- No teu lugar, não estava tão seguro disso... Mas percebeste o que é que ele tem a ver com a música?
- Sim. Quer dizer... Acho que sim. Não tem nada de extraordinário! No fundo, queres dizer , como dizem os artistas, que nós não temos de procurar, mas apenas "encontrar". Que essa história do amor está mais dentro de nós, do que fora de nós.
- Bem... não imaginas como fico contente por teres percebido exactamente o que eu queria dizer com isso...
- E eu fico contente por ti! E mais, sei que também queres dizer que para quem procura essa coisa do amor, a resposta não está só numa pessoas, ou até, em pessoas...
- Bem. Agora, como se costuma dizer, fiquei sem palavras. Só não te dou um abraço porque tenho receio que seja mal interpretado.
- Tolo!
- Não. A sério. É que essa letra que tens desenhada na tua t-shirt parece-me um coração deitado, em repouso. Parece-me um coração que não está a bater tudo o que merece bater. Por isso não me ia sentir bem... Tolices minhas, eu sei. Afinal nem nos conhecemos! Mas parece-me um coração que anda à procura de alguma coisa...
- Mas agora conhecemos.
- Mas agora eu vou embora.
- E eu acompanho-te...... até à saída!

Riram-se os dois da pequena pausa que ela fez e foram juntos até à saída, onde se despediram.
Ela voltou para a cadeira e para o contador.
Ele voltou-se para a saída folheando apressadamente o moleskine para ver se ela tinha escrito alguma coisa. Em vão, claro. Ela não escreveu.
Quando chegou às escadas e voltou a olhar para a cadeira e não a viu, pensou: "loucura, é não fazer determinadas loucuras".
Voltou para trás, entrou na primeira sala, com imagens de edifícios de arroz, esparguete e tagliatelle, onde ela estava com os olhos a marejar de braços abertos à espera do abraço dele.

quarta-feira, junho 25, 2008

Utopia, 15:45 - [2.º Acto]

Ela acompanhou-o apenas até à primeira sala, onde estavam as fotografias de edifícios feitos de arroz, esparguete e tagliatelle. Não podia abandonar a entrada...

- Claro, compreendo. Responsabilidade é responsabilidade.
- Pois. E eu preciso disto.
- Mas posso deixar-te uma coisa para não ficares sozinha?
- Sim, podes. Queres que te guarde essa carteira? Claro que o faço!
- Não... Não é nada disso. Podes não acreditar no que te vou dizer -acho mesmo normal que não acredites, porque te vai parecer coincidência a mais-, mas a primeira música que ouvi quando vinha para cá, foi essa. E comecei a pensar no significa o título. Bem... duzentos quilómetros deu para pensar bastante. Deu até para escrever. E era isso que te queria deixar. Apesar de tudo é um pedacito deste pateta que te fica a fazer companhia.

Chamar-se a ele próprio de pateta serviu, como imaginam, para arrancar um sorriso dela. Belíssimo. Radiante.
Então pegou no moliskine preto que lhe tinham oferecido no aniversário, abriu-o numa página com o título Se ele fosse um gato e deu-lho.

- Escrevi isso por causa dessa canção. Agora, como não me podes acompanhar, vou até lá ao fundo ver afinal o que é esta utopia.
- Eu ia. A sério que ia...
- Deixa-te ficar. Mas, por favor, lê... gostava de ter uma opinião tua.

Ela começou ler:
...felizmente, como qualquer outra forma de arte, a vida presta-se a interpretações ambíguas. Sem muito esforço, o contrário do que sentimos, dizemos e fazemos é, também, verdade.




sábado, junho 21, 2008

Utopia, 15:45 - [1.º Acto]

A última viagem que ele fez não tinha Utopia como destino, mas uma cidade à qual dificilmente resistimos no que as paixões da alma diz respeito.
Como se sabe, em Utopia todas as cidades se repetem: quem vê uma, viu todas.
Esta onde ele foi, como todas as outras, é única.
Mas por uma razão que só o acaso explica, ele acabou o dia numa Utopia.

Ela estava à entrada, sentada numa cadeira alta, vigilante e elegante.
Quando ele entrou, o contador que ela tinha na mão disparou mais uma vez.
- Com que número fui contemplado?
- Três!
- Só entraram 3 pessoas aqui?
- Hoje, sim.
- Queres que entre e saia muitas vezes para atingires um recorde?
- Não... isso era batota!
- Óptimo. Ainda bem que é batota. Vamos a isso.
O contador disparou umas quatro vezes seguidas e a boa disposição que se gerou entre eles transformou em sorrisos todas as fotografias que estavam penduradas nas paredes brancas e o silêncio, em risos.
Só faltava o Sol para reforçar com sombras o brilho dos olhos deles. Mas numa cave... só se um deles se transformasse num Sol...
- Anda comigo.
- Não posso. Estou presa a esta cadeira a contar pessoas.
- Anda.
Foi.
- O que estás a ouvir?
- A música que estou a ouvir?
- Sim. Qual é?
- Neste momento, "Where is my love".
- Cat Power.
- Sim.

quarta-feira, junho 18, 2008

Os outros.

Ontem voltaram à praia dos livros de areia.
Aliás, encontraram-se lá. Ela estava por ali perto e ele foi lá ter.
A água continuava cor-de-laranja como da última vez, mas o areal de livros estava mais colorido. Claro que não o posso garantir, mas creio que havia tantas cores quantas letras tem o alfabeto que eles usam para construir as suas histórias.
Mas esperava-os outras mudanças daquele cenário...
Primeiro, quando decidiram entrar na água, repararam que o mar mudava de cor. Mudava de cor quando ficavam parados; mudava de cor quando nadavam; mudava de cor quando se beijavam; mudava de cor quando falavam apenas com os olhos; mudava de cor quando riam; mudava de cor quando gritavam...
Ele foi o primeiro a sair da água para ver à distância aquele espectáculo, enquanto ela fazia todas as tropelias para a água mudar de cor.
Depois trocaram.
A cor dos olhos dela, claro, acompanhava as mudanças da cor da água.
Se eles tiveram dias felizes juntos, este foi, com toda a certeza, dos melhores.
Quando foram embora, decidiram que o deviam fazer tentando pisar tantos livros amarelos quanto possível.
Foi nessa altura que deram conta de outra mudança no cenário: um casal a trabalhar de modo frenético em cima de uma mesa de madeira.
Como tinha escurecido, não dava para ver o que faziam eles.
Corajosa, ela aproximou-se e perguntou-lhes porque estavam tão atarefados e o que estavam a fazer.
E eles responderam, em uníssono, com uma voz doce e quente: "livros".

domingo, junho 15, 2008

Breathe, keep breathing




















Faço uma pausa, depois de respirar fundo tudo o que me possa animar.
Tudo o que me dá ânimo.
Prolongo esse momento o tempo que posso, para me sentir bem aqui "dentro".
Prolongo esse momento o tempo que posso, para te ter aqui comigo.
Só comigo.
Só para mim.
Faço uma pausa, antes de perceber que significado poderão ter os próximos gestos.
Faço uma pausa, não um intervalo, para que os próximos passos sejam dados, de preferência, na tua companhia.
Porquê?
Porque é preciso que assim seja.
Porque o caminho tem largura para irmos lado a lado.
Porque o caminho tem de ter mais do que as minhas pegadas.

sexta-feira, junho 13, 2008

O meu nome

É casa.
O meu nome é casa.
Não com o sentido que lhe é dado pelos construtores, mas com o sentido que lhe é dado pelos poetas, quando dizem que a casa é onde está o coração; ou com o sentido que lhe é dado pelos filósofos, quando dizem que a alma é uma morada.
Por isso dou comigo frequentemente a pensar que é esse o meu nome: casa.
Não sou feminino nem masculino; não sou alegria nem tristeza; não sou dor nem sou prazer... Apenas e tão só: "não sou".
Sou uma coisa em construção a quem um escritor meu amigo deu uma memória igual à de Funes e se vai fazendo com os pedaços de mim que deixo no coração de quem me quer bem.
E é assim, dotado desta memória, que passo algum do meu tempo a ver como o meu nome se vai construindo e se ficarei bem sempre que partir.

segunda-feira, junho 09, 2008

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É provável que hoje se sinta um profundo silêncio não muito longe daqui.
Se tal acontecer, acreditem: é porque ele se vai transformar em areia e em água salgada.
Em mãos de ar que vão acariciar tudo o que lhe apetecer tocar.
Se esse silêncio acontecer, será porque ele vai permitir que o mundo descanse um pouco.
Nem que seja por um dia, vai tomar-lhe o lugar.

sexta-feira, junho 06, 2008

Se ele fosse um gato...

Cansado.
Visivelmente cansado, deixou esquecido, em cima sua mesa, o bloco de notas onde escreve e desenha pensamentos que costuma guardar apenas para si.
Ficou esquecido, aberto na página onde escreveu apenas duas frases:

"Felizmente, como qualquer outra forma de arte, a vida presta-se a interpretações ambíguas. Sem muito esforço, o contrário do que sentimos, dizemos e fazemos é, também, verdade."

Poderá parecer um paradoxo escrever isto num dia em que ele, mesmo que tentasse, não conseguiria disfarçar o prazer que o invadiu numa luta desigual.
Deliciosamente desigual.
Não consigo descrever esse dia -ou o que ele fez com que esse dia fosse- melhor do que o fez um poeta francês, quando fez um Sócrates imaginário relatar um dos seus melhores dias -"un jour de mes beaux jours..."- a um parceiro caminhante, demonstrando que as linhas da sua vida partiram todas daquele dia.
Tal como este filósofo imaginário, também ele sabia que tinha -e tem sempre que quer- o poder de fazer uma pausa ou de continuar a andar.
De ficar "suspenso" ou então a ganhar asas e voar, bastando para isso que encontre uma parte de si no momento e no "lugar" certo.
Nesse dia encontrou-a. Ele sabia que a ia encontrar.
Como todas as pessoas, ele tem em si todas as pessoas que conhece e todos os sítios que visita... mas isso também outro poeta já o disse de uma forma bem mais eloquente do que eu poderia fazer aqui.
Mas o contrário desta sentença também é verdade.
É bom acreditar que seja: que um pouco de nós está em todos os lugares onde estivemos e em todos os corações que visitamos.
Mesmo desconhecendo o estado em que esses nossos pedaços se encontram quando os encontramos, acreditem, é bom encontrá-los.
Pois a ele, mesmo consciente desta dúvida, não o vi menos tranquilo quando sentiu que ia ao encontro de si.
De uma parte de si.
Pelo contrário.
Ele reúne muito mais do que dois sentimentos. Como todas as pessoas.
E sente-os de todas as maneiras que consegue imaginar.
E poder ver-se a si próprio com os olhos de outro é uma oportunidade rara que jamais se pode dispensar.
Por isso ele terá escrito que é uma forma de arte, esta tarefa de viver.
E a imagem que me ocorre para o ilustrar, é a do seu gato a procurar o seu ombro ao final da tarde e adormecerem os dois em posição fetal na cama ainda raiada de Sol. Ou a fingirem que dormem.
Sob as suas mãos e sob o corpo do gato, uma página manuscrita de um moleskine preto que não consigo ler.


terça-feira, junho 03, 2008

Let down

segunda-feira, junho 02, 2008

Os dias

Não os conto. Não os desconto.
Não os somo, nem os subtraio.
Aceito-os com tudo o que os diferencia, assim como os aceito pelo que têm de igual.
Aceito-os com a passividade de quem não se interessa por eles.
Não me interessam quando, como agora, me sinto capaz de os moldar ao sabor do que nos dá prazer e nos tranquiliza.
O tempo, de facto, não tem qualquer importância.
A não ser o tempo que levamos para perceber a sua insignificância.
Comparados com aquilo que podemos fazer deles... "os dias" não valem nada.

terça-feira, maio 27, 2008

As estrelas de papel

Já o tinha visto a recolher as suas lágrimas naquele instrumento que só a custo posso chamar de caneta, mas com o qual ele consegue escrever alguns parágrafos em folhas lisas de papel branco.
Sei que quando usa essa espécie caneta aproveita todas as lágrimas - as que chora de dor e as que chora não sofrendo - e sei também que dedica as poucas linhas que consegue escrever, a celebrar as suas amizades quando mais lhes sente o seu pulsar no coração.
Certa vez vi-o, decidido, durante dias a fio, a transformar uma cidade num céu. Confesso que me deixei encantar por aquele gesto pueril. Confesso até que gostava de o ter acompanhado naquela tarefa que só em sonhos parece poder acontecer.
Cobriu então o chão da maior divisão da casa com folhas de papel, em regime cuidadosamente ortogonal como se fosse a planta de uma qualquer cidade hipodâmica.
Nos dias seguintes deambulou sem regra por cima daquela cidade e deixou que as suas lágrimas pingassem de alto sobre as folhas. Ao fim de uma semana, armado de lápis de todas as cores, lançou-se ao chão e desenhou os contornos de todos os pingos que tinham deformado suavemente as folhas.
Depois de desenhados todos os contornos, aquele conjunto de folhas perdeu a sua ordem, porque aquilo que antes representava o chão, transformou-se numa espécie de céu com estrelas de todas as cores e tamanhos.
Tudo isto se passou há cerca de dois anos, mas ainda hoje, antes de dormir, passeia-se descalço naquela divisão da casa com o sorriso de quem tem o poder de voar quando quer e inverter as lógicas do cosmos.
De vez em quando diz para si próprio: "só porque o sentes, não quer dizer que esteja aqui".
E os seus olhos ficam brilhantes como se deles fosse nascer a estrela que perdeu.

terça-feira, maio 20, 2008

As pegadas azuis

Desta vez foi a correr como se soubesse qual era o seu destino e ao que ia.
Só parou quando o mar já era o seu céu e o corpo lhe pedia descanso e calor.
O areal que atravessou, azul-escuro, não deixava perceber quaisquer marcas das suas pegadas ou de outros que por ali tivessem andado.
Aquela praia, onde tudo parecia invertido, estava vazia.
Não tinha gente.
Não mostrava razões para uma caminhada tão decidida.
Não era de um encontro que se tratava.
Não tinha Sol que o aquecesse, porque o Sol estava noutro sítio que não ali.
Não tinha crianças disfarçadas de anjos a brincar com a areia.
Não tinha mais do que o que faz com que uma praia seja uma praia.
Estar ali decididamente sem qualquer objectivo: era esse o seu propósito.
Sentir que podia desaparecer.
Sentir-se como se fosse a única criatura no seu mundo, com a responsabilidade de tratar dele.
Quando saiu da água e voltou ao céu que lhe dá o ar que precisa e merece, viu que afinal não estava sozinho.
Todos os pares das suas pegadas tinham-se transformado nele.
Dezenas de criaturas iguais a ele olhavam-no fixamente e começaram a sua vida quando ele encheu os pulmões…
A imagem de um exército de eus não lhe afectou o ego.
Não o aproveitou para realizar todas as maravilhas e travessuras que podemos imaginar sendo mais do que um.
Ao primeiro, mandou-o para Norte com uma maçã assada numa das mãos, a bater a todas as portas que estivessem abertas e ficar na casa onde houvesse mais maçãs assadas.
A dez deles, mandou-os para Sul em missão difícil: perguntar a todos com quantos se cruzassem se sabiam o seu nome e transformá-los em anjos.
A mais oito, mandou-os para Nascente —não sem antes lhes pedir que fizessem uma caminhada pelo areal— com a tarefa de se transformarem na sombra de todos quantos não se conseguem ver a si próprios.
Ao que sobrou, pediu-lhe que ficasse um momento com ele, que o abraçasse e o levasse até casa.

terça-feira, maio 13, 2008

A apanhadora de conchas

No dia em que ela somou mais um mês aos seus anos, ele achou que devia celebrar a vida, não apenas a dela, mas a Vida. A ideia de como o fazer foi-lhe dada na noite anterior, numa situação em que, por magia, as sombras tinham mais vida do que aqueles que davam vida às sombras. Decidiu então trocar de posição com a sua sombra durante esse dia. Depois de um abraço que ele e a sua sombra deram exactamente ao meio-dia, passou a gozar de todas as sensações que a sua sombra antes tivera gozado. Nesse dia, ele pode ser relva, água, calma e agitada, pode ser de qualquer cor e de qualquer material. Pode estar em duas ruas ao mesmo tempo, desde que estas fizessem uma esquina. Pode ser o próprio céu, subir a árvores e ser um ramo. Pode estar dentro e fora dos edifícios. Pode ser o corpo de qualquer pessoa que se lhe atravessasse à frente. Pode subir a qualquer prédio e espreitar pelas janelas. Pode gozar com os comboios que o tentavam magoar quando se deitava no carris.
Antes que o dia acabasse, cansado, foi deitar-se à frente do banco de jardim que passou a ser seu sem que deixasse de ser de quem achasse que tinha o direito de o ter também.
Ali, deitado no chão a olhar o vulto que lhe dava ânimo, feito tijolo da calçada, foi pisado por todos quantos por ali passavam sem que se magoasse com isso.
Entretanto passou a Sophia e teve de terminar o festim que estava a celebrar desde essa manhã, porque ela o olhou nos olhos e lhe disse que não era assim que ele devia estar a comemorar: devia andar a apanhar conchas e escrever nelas os nomes de todos os que o amam.

terça-feira, maio 06, 2008

Segredo

Por dois dias consecutivos ela apareceu-lhe em forma de anjo.
Na primeira vez, ela limitou-se a sentar-se ao seu lado num banco de jardim -recolhendo suavemente as suas asas pretas- e a conversar com ele sobre qual deveria ser a cor dos coelhos, sempre que eles se abraçam. Se deveria mudar ou não. Ela quis sentir o timbre da voz dele e ver o reflexo dos seus olhos nos olhos dele, quando ele fantasiava sobre histórias que só ele sabia imaginar. No fundo, queria saber se a sua ausência era motivo de alguma dor ou se ele mantinha a tranquilidade que um dia lhe tinha confessou ter por tê-la conhecido.
Antes de ir embora, voou à volta dele e criou uma almofada com os flocos de neve que caiam das árvores, para que ele encostasse a cabeça, pois tinha adormecido durante a conversa.
Ele estava cansado.
Na segunda vez, ela estava à espera que ele aparecesse.
Como já conhecia a nave espacial que ele costumava usar para se deslocar nos sonhos, ficou radiante ao vê-lo a aproximar-se. Sem que ele desse conta, ela recolheu outra vez as asas e ficou à espera que ele a abordasse.
Mas desta vez ele estava visivelmente triste, o que a inquietou bastante, pois faltava ainda muito tempo para que pudesse regressar.
Lembrou-se então que se o desafiasse a jogar o jogo do cubo gigante amarelo que eles inventaram um dia na praia, podia descobrir o motivo da sua tristeza.
Mas ele não se lembrava do jogo... e isso só podia acontecer se ele estivesse a ser consumido por saudades.
Quebrando então todas as regras, ela abraçou-o com as suas asas pretas e segredou-lhe ao ouvido...

segunda-feira, abril 28, 2008

Os sonhos a cores

Ao final da tarde ele já tinha reunido 2.820.285.082.126 lápis de cor.
O mar estava calmo, como costuma estar nos finais de tarde de Setembro e a praia já estava vazia.
Como tinha muito tempo à sua frente, pegou na nave espacial e fez voos junto à areia de modo a criar uma superfície lisa e sem sombras.
Um a um, espetou um número considerável de lápis e escreveu o nome dela vezes sem conta.
O efeito era lindíssimo, com o poente do Sol a criar sombras enormes e a fazer brilhar todas aquelas cores.
Mas, claro, sobravam imensos lápis e o resto do areal estava disponível...
Como ele não tinha ideia de quando ela regressaria, começou a espetar mais lápis. Escreveu o poema mais bonito que ela lhe recitou uma vez, de noite, quando fugiram em silêncio de um sonho que tornaram realidade.
Na manhã seguinte já não se distinguia a areia.
Aquela mancha de cor substituiu o areal, com desenhos que pareciam não ter lógica.
Enfim.
Mas que lógica tem aquele poema?

quarta-feira, abril 16, 2008

Como o carnaval acaba... todos os anos

Ao princípio ele não deu grande importância à forma como sentia a ausência dela, mas agora que tem as mãos ensanguentadas, é impossível continuar a ignorar algo que, ao fim e ao cabo, é uma evidência.
Tudo aconteceu um dia quando agarrou o Tempo com toda a sua força para a levar para um dos seus melhores dias. Para qualquer um dos dias que ela lhe confessou a sua felicidade. Mas nesse momento sentiu a forma cruel como ele tem a capacidade de terminar com um pouco de nós todos os dias; como todos os dias termina com um pouco do mundo e como todos os dias começa com o pouco do mundo que acaba. Assim... tal como o Carnaval acaba todos os anos.
Foi como se um dos seus ponteiros rodasse suavemente nas mãos dele até que o golpe fosse suficientemente fundo para que ficasse claro que ele tem vontade própria e não obedece senão aos seus caprichos.
Mas foi apenas um dos ponteiros que rodou.

quinta-feira, abril 10, 2008

Como se não houvesse amanhã (II)

Vou lançar-me no ar sem saber se o vento me leva na tua direcção.
Mas desejo tanto que no final pouse entre os dedos da tua mão esquerda. Que sussurres no meu ouvido que é a nós que o Tempo obedece. Que é ao nosso ritmo que ele vai passar a andar.
Desejo tanto que a tua mão direita me molde num dos teus sorrisos e o Sol me ilumine para eu me ver como se fosse a tua sombra.
Desejo tanto, mas tanto, que os meus olhos digam tudo por mim, para reservar os meus lábios apenas para respirar ao teu lado.

terça-feira, abril 08, 2008

Como se não houvesse amanhã (I)

Vou subir ao cimo do teu corpo e nele espraiar-me como se fosse terra virgem;
Vou beber cada segundo como se do último se tratasse;
Vou viajar pelo mundo e descobrir novos continentes;
Vou aprender a falar todas as línguas, compreender todas as culturas e saborear todos os sabores;
Vou adoptar a criança mais pobre de todas e dar-lhe tudo o que tenho;
Vou descobrir a estrada que conduz ao céu e pedir aos anjos que salvem a humanidade;
Vou levar-te comigo para onde vão aqueles que não sabem chorar;
Vou aprender a tecer casulos e oferecê-los aos que se sentem sós;
Vou fazer tudo aquilo que a imaginação permite e o Homem não consente...e então morrerei feliz!

sexta-feira, abril 04, 2008

Os livros de areia

Desta vez ele não foi de carro.
A polícia já estava prevenida e não ia permitir que ele subisse outra vez com o carro até ao 3.º andar e acelerasse até ao fundo do corredor.
Foi na nave espacial e pairou à frente da penúltima janela do edifício.
Quase de certeza que era essa a janela do gabinete dela.
Quando ela viu no reflexo do monitor do computador uma forma estranha a acenar de forma agitada, abriu a janela e não resistiu: saltou.
Saltou para a asa esquerda daquele objecto que voava porque eles pensavam que voava. Tão só por isso.
Aceleraram a fundo.
Passaram pelas copas das árvores mais altas.
Evitaram os ninhos.
Subiram rapidamente para pegar em pedaços de algodão doce que se disfarçavam de nuvens e comeram-nos contra o vento para que os lábios ficassem brancos e doces.
No final da tarde pousaram numa praia com a água cor-de-laranja e areia feita de pequenos livros com apenas uma letra e passaram o resto do tempo a reunir as páginas que contavam a história deles.

quarta-feira, abril 02, 2008

O mundo num dia

Há dias serenos cujo ar nos inebria
Há dias tristes que nos toldam a razão de viver
Há dias molhados, como os teus beijos, que nos devolvem a harmonia
Há dias de sol, que nos fazem renascer.

…e há dias assim, como este, baços como fumo, que se vão moldando à vontade divina e nos fazem percorrer o mundo todo num fragmento de uma já curta existência, como se de uma cruzada proibida se tratasse.

domingo, março 23, 2008

O amor, num dedo


Ontem conseguiram, finalmente, almoçar sozinhos.
No mesmo café e na mesma mesa de sempre mas, desta vez, sozinhos.
Como foi na véspera da partida dela, o almoço foi ensombrado pelas saudades que já começavam a sentir.
Apesar de terem combinado um pequeno-almoço para hoje, aí sim, para se despedirem, o almoço foi, acima de tudo, um exercício de imaginação para remeter aquela partida para um tempo distante.

Hoje, ela apareceu à hora marcada.
O mesmo café.
A mesma mesa no canto do café.
Esperou o tempo que pôde.
Esperou até ao limite e saiu apressadamente para apanhar um táxi, sem que ele tenha aparecido.
Enquanto esperava por ele, começou a chover e o ar dentro do café ficou abafado e húmido. Foi então que apareceu, na janela pela qual olhava insistentemente para a paragem de autocarro, um “gosto de ti” desenhado com letras apressadas.
Enquanto a humidade segurava aquelas letras, antes de se transformarem em gotas de água, ela não resistiu a pensar que foi ele…
Ela sabe que aquela cabeça louca, docemente maquiavélica, era capaz de proezas daquele género. Que aquela era a forma de ele se despedir deixando uma imagem indelével na sua memória, para assim monopolizar todos os seus sentimentos.
Ela sabia que ele escreveu aquelas letras a seco, no vidro, para que aparecem sempre que chovesse… e para que sempre que chovesse ela se recordasse: “gosto de ti”. Sabia que ele queria que ela pensasse que nos dias de Sol, as letras estariam lá na mesma, mas só eles os dois sabiam disso.

Quando ela chegou ao hotel, tinha uma mensagem à sua espera na recepção.

terça-feira, março 18, 2008

Dúvidas

Aquela imagem de uma lágrima cristalina à beira de um olho, acompanhou-o até se render ao cansaço e dormir.

Porque soltou ela aquela lágrima?

Por um motivo que nunca se preocupou explicar, ele é daquelas pessoas que se relacionam poeticamente com o mundo e que acham que só por ironia se pode chamar "pensamento livre" àquele que procura investir-se da verdade aparente das ciências exactas e dos raciocínios lógicos.
Ele deseja liberdade para o seu pensamento de uma forma impulsiva, para que seja “serpenteante” e “helicoidal”; para que “olhe” para trás e para a frente ao mesmo tempo; para que seja “horizontal” e “vertical” em simultâneo.
Por isso não distingue entre causas e efeitos quando o que está em causa é ela.
Por isso lhe dói ficar na incerteza de não saber se é alguma alegria que segura aquela lágrima para prolongar o seu prazer; ou se é alguma tristeza que anuncia que outras lágrimas virão.
Se se soubesse quão grande é a impotência que ele sente nesses momentos, o mundo encarregar-se-ia de dar cores diferentes a essas lágrimas.
Pelo menos isso!
E agora compreendo melhor, também, porque decidiu ele ser tão “transparente” para ela.
Se fosse um espelho talvez fosse imune: mas sendo como é, é atravessado pelo que vê e pelo que sente... sem qualquer disciplina.
No final de todos os dias, promete a si mesmo fazer um “projecto de disciplina”.
Mas assusta-o que apenas o consiga com a ausência da sua liberdade.
Ou que tome a liberdade de se ausentar.
Mas confia que aquele sorriso que fica entre parêntesis quando ela sorri, jamais o permitirá.

segunda-feira, março 17, 2008

Momentos

Estava na praia e observava a névoa junto ao mar. As gaivotas andavam por ali, deixando marcas na areia e gritando ao vento. Ele fixava a rebentação suave das ondas e tentava ouvir o que o mar tinha para lhe dizer. Mas hoje o mar não o estava a ajudar muito... Há anos que cumpria aquele ritual: quando tinha uma decisão importante a tomar ia até aquele lugar, na praia, e conversava com o mar. Habitualmente saía de lá com uma resposta. Mas hoje parecia ser um dia diferente. Os rumores marítimos eram imperceptíveis, misteriosos. Sentia-se perdido. Talvez até abandonado. Afinal aquele era o seu último reduto, o seu espaço mais íntimo. O som das ondas, a imensidão da água, aconchegavam-no, não o assustavam. Mas hoje não o ajudavam, não lhe davam a paz que ansiava.
Levantou-se. Passeou pela areia seguindo o percurso marcado pelas gaivotas. Perdeu-se. Aquele traçado labiríntico quase o distraiu da razão principal de ali estar… Voltou ao seu lugar favorito. Reparou então nas nuvens que formavam uma espiral na linha do horizonte: nasciam no mar, avermelhadas, subiam serpenteando em tons de rosa até atingirem o céu, já cor da neve. Aí misturavam-se com o azul cinza que anunciava a noite. E era belo. Aquelas nuvens pareciam a escada que conduz às portas de deus. Apeteceu-lhe subir por elas... Levantou-se decidido a fazê-lo! Esperava ouvir uma resposta e afinal ela estava ali, à sua frente. Desta vez o mar não falara com ele: mostrara-lhe o caminho!
Mal tinha dado os primeiros passos, a bola de uma criança atingiu-o nas costas:
"-Desculpe, senhor”.
"-Não faz mal", sorriu, pálido.
"-Quer jogar comigo? Não tenho pai e a minha mãe não sabe jogar."
"-Hoje não posso, obrigado. Talvez um dia destes..."
Talvez um dia destes… Um dia destes… (ecoou o grito de uma gaivota)
Ponderou então ir embora e voltar no dia seguinte. O menino chamou-o para lhe dizer adeus e pedir que não se esquecesse de voltar. Sorriu-lhe. E seguiu, saindo da praia.
Olhou para trás, para a escada de nuvens como a despedir-se da tentação de a subir. E olhou de novo para o menino que, sem saber, o tinha demovido de o fazer.
"Amanhã é outro dia, o mar falará comigo!... E um dia destes, quem sabe…"

sexta-feira, março 14, 2008

Escrever "amizade" - I

Passou uma noite a pensar em tudo o que lhes está a acontecer.
Sabia que era natural que a partir de certa altura todos os sentimentos se fundissem numa coisa informe e indescritível.
Que a dor e a alegria seriam, uma e outra vez, dois estados de alma sinónimos.
Mas naquela noite quis perceber porque tinha de ser assim.
Achou que não conseguiria viver tudo aquilo “apenas” à flor da pele.
A conclusão foi tranquilizadora.
Melhor: procurou a conclusão mais tranquilizadora.

“Uma amizade não correspondida…, é muito mais dolorosa que um amor não correspondido”.
Mais tarde voltarei as estas palavras.
Agora não as posso continuar porque, acreditem ou não, estou a escrever com as suas lágrimas.

quinta-feira, março 13, 2008

História banal

Tudo começou de forma inesperada e surpreendente. Um percalço da vida quotidiana daqueles que acontecem uma única vez. A expressão é redundante mas verdadeira: uma única vez. Porque algo assim não acontece, não pode acontecer mais do que uma vez. E portanto essa vez é única em número e em sensações.
É verdade que, mesmo antes de acontecer alguma coisa, alguns pensamentos lhe ocorriam mas, por lhe parecer algo tão improvável e distante, logo os afastava. Por vezes aquele olhar de admiração surgia. Umas vezes salpicado de curiosidade, outras vezes de desejo de um maior conhecimento, sempre com grande vontade de aproximação. No entanto, porque estavam em planos e em mundos diferentes, todas estas ideias eram de imediato banidas, porque inalcançáveis, senão mesmo interditas.
Um dia o encontro deu-se. Um encontro de ideias e de sensações. Mais tarde a percepção de gostos comuns e alguns desafios intelectuais que o acaso fez surgir, aumentou a sensação de ter acontecido algo raro. Um encontro que agora se deseja que ultrapassasse o mundo etéreo das ideias e dos gostos pessoais. (É espantoso, como se consegue estar perto de alguém durante uma vida, sem realmente a ver!)
Sem saber que rumo tomará ou mesmo como terminará este encontro, sabe que nada voltará a ser como antes. A vida tem estes acasos fascinantes, estes acontecimentos, estes (como lhe chamei) “percalços” capazes de modificar a visão do mundo e transformar o sabor a um quotidiano raras vezes interessante. É uma história inacabada, como a de um livro cujo autor receia escrever o final, uma história quase penosa pela ansiedade que gera e pelo prazer que dá. Aguarda novos dias, cujo texto o tempo escreverá.

Palavras que ficam por dizer

Ficam por dizer, não porque não consiga dizê-las, mas porque desaparecem no momento em que as pensa, transformando-se numa espécie de algodão que fica no peito.
Doce.
Algodão doce.
As palavras que ficam por lhe dizer, ficam por dizer porque jamais poderão descrever o seu olhar quando os seus olhos exigem: gosta de mim.
Um dia percebeu que no meio do algodão que retinha no peito, encontrou, junto ao seu coração, outro coração igualmente adocicado, pingando de felicidade por ter encontrado uma amizade que só os dias de sol aberto e as mentes saudáveis podem fazer nascer.
O algodão derreteu.
O doce ficou.

quarta-feira, março 12, 2008

O tempo está do nosso lado

Trago o tempo comigo. À flor da pele, claro.
Sei que o poder do início de uma aventura nos pode iludir; que de futuro terá o seu próprio rumo. Uma espécie de vida própria que se alimentará de nós.
Por isso trago o tempo comigo.
Para que cada momento que estou contigo, contenha todos os momentos que já partilhámos.
Para estar contigo, não quero, não posso e não me imagino a pensar no passado ou no futuro.


o tempo está do nosso lado

segunda-feira, março 10, 2008

Porque sim

Porque gosto de ti e quero partilhar um espaço; Porque gosto de ti e quero construir algo em comum; Porque gosto de ti e me apetece iniciar uma aventura.
Porque gosto de ti?
Porque sim!