segunda-feira, março 17, 2008

Momentos

Estava na praia e observava a névoa junto ao mar. As gaivotas andavam por ali, deixando marcas na areia e gritando ao vento. Ele fixava a rebentação suave das ondas e tentava ouvir o que o mar tinha para lhe dizer. Mas hoje o mar não o estava a ajudar muito... Há anos que cumpria aquele ritual: quando tinha uma decisão importante a tomar ia até aquele lugar, na praia, e conversava com o mar. Habitualmente saía de lá com uma resposta. Mas hoje parecia ser um dia diferente. Os rumores marítimos eram imperceptíveis, misteriosos. Sentia-se perdido. Talvez até abandonado. Afinal aquele era o seu último reduto, o seu espaço mais íntimo. O som das ondas, a imensidão da água, aconchegavam-no, não o assustavam. Mas hoje não o ajudavam, não lhe davam a paz que ansiava.
Levantou-se. Passeou pela areia seguindo o percurso marcado pelas gaivotas. Perdeu-se. Aquele traçado labiríntico quase o distraiu da razão principal de ali estar… Voltou ao seu lugar favorito. Reparou então nas nuvens que formavam uma espiral na linha do horizonte: nasciam no mar, avermelhadas, subiam serpenteando em tons de rosa até atingirem o céu, já cor da neve. Aí misturavam-se com o azul cinza que anunciava a noite. E era belo. Aquelas nuvens pareciam a escada que conduz às portas de deus. Apeteceu-lhe subir por elas... Levantou-se decidido a fazê-lo! Esperava ouvir uma resposta e afinal ela estava ali, à sua frente. Desta vez o mar não falara com ele: mostrara-lhe o caminho!
Mal tinha dado os primeiros passos, a bola de uma criança atingiu-o nas costas:
"-Desculpe, senhor”.
"-Não faz mal", sorriu, pálido.
"-Quer jogar comigo? Não tenho pai e a minha mãe não sabe jogar."
"-Hoje não posso, obrigado. Talvez um dia destes..."
Talvez um dia destes… Um dia destes… (ecoou o grito de uma gaivota)
Ponderou então ir embora e voltar no dia seguinte. O menino chamou-o para lhe dizer adeus e pedir que não se esquecesse de voltar. Sorriu-lhe. E seguiu, saindo da praia.
Olhou para trás, para a escada de nuvens como a despedir-se da tentação de a subir. E olhou de novo para o menino que, sem saber, o tinha demovido de o fazer.
"Amanhã é outro dia, o mar falará comigo!... E um dia destes, quem sabe…"

4 comentários:

alex disse...

emocionei-me. a evolução do texto é envolvente. quase ouvi o "mar falar comigo".

Anónimo disse...

belíssimo.
:')

Maria Clara

Duarte disse...

Motivou esta visita a mensagem que me deixas-te.

Textos que relaxam e convidam à reflexão. Gosto.

Conheces o livro "Juan Sebastián Gaviota"? É uma delicia e, como o teu texto, dá asas à imaginação, e convida à reflexão.

Fizeste-me voltar, por breves momentos, a Santiago do Corgo, donde vivi momentos análogos aos que narras. Estou-te agradecido

Anónimo disse...

"Hoje estou aqui, amanhã quem sabe". E fui ficando, amando, saboreando, criando raízes... Um dia destes, quem sabe, talvez nos encontremos por aí, noutro registo, noutro contexto, sem espartilhos nem amarras... e talvez não demore muito...
Os teus olhos estão aqui, o teu sorriso, a praia é tua...