segunda-feira, junho 30, 2008

Desenhos sem tempo

As gotas das lágrimas juntaram-se às gotas de suor.
Desta vez não o vi preocupado em aproveitá-las para escrever o que quer que fosse.
Umas, caiam nas folhas de papel espalhadas no chão, onde mais tarde desenhou balões em forma de flores, agarrados às mãos de bonecos por fios finos transparentes, tão transparentes quanto as gotas que lhes deram vida.
Sem tempo.
Outras, caiam no corpo dela, onde se apressava a desenhar espirais para que o tempo repetisse aquele momento.
Sem fim.

domingo, junho 29, 2008

Utopia, 15:45 - [3º Acto + Epílogo]

Ele foi então ver sozinho que utopia era aquela.
Sala após sala, muitas imagens se esforçavam por mostrar algo de irreal mas, afinal de contas, tudo o que mostravam era pouco mais do que a realidade.
Todos nós sabemos que a "utopia" é o "lugar" que os artistas -arquitectos incluídos- mais apreciam para realizar as suas ideias. No entanto, sala após sala, não havia mais do que registos de tudo quanto nos envolve nas nossas cidades, o que se tornou num bom pretexto para que os passos dele fossem dados ao ritmo certo do tempo da leitura de um pequeno texto.
Estranha, era a primeira sala, com os edifícios de arroz, esparguete e tagliatelle.
Estranho, também, foi que numa das salas estava uma mota em modo de descanso.
Parecia estar ali para dar uma certa tonalidade àquele contexto. Talvez para nos chamar à realidade e fazer com que as imagens ali penduradas conseguissem ter algum estatuto de irrealidade.
A verdade é que a mota passou a persegui-lo durante o resto da visita, obrigando-o a acelerar o passo: ela estava a chegar ao fim do texto.
Quando ele voltou ao corredor principal, enorme, ela estava no outro extremo a fechar o moleskine.
A vontade de chegar perto dela o mais rápido possível era tanta, que quase montou a mota...
Mas eles dividiram o trajecto.
E a mota ficou sossegada.
Aliás, voltou para a sua sala.

- Gostei muito do texto. Sinceramente. Faz-nos pensar em muitas coisas. Mas a rapariga de que falas aqui não sou eu! É pena!
- No teu lugar, não estava tão seguro disso... Mas percebeste o que é que ele tem a ver com a música?
- Sim. Quer dizer... Acho que sim. Não tem nada de extraordinário! No fundo, queres dizer , como dizem os artistas, que nós não temos de procurar, mas apenas "encontrar". Que essa história do amor está mais dentro de nós, do que fora de nós.
- Bem... não imaginas como fico contente por teres percebido exactamente o que eu queria dizer com isso...
- E eu fico contente por ti! E mais, sei que também queres dizer que para quem procura essa coisa do amor, a resposta não está só numa pessoas, ou até, em pessoas...
- Bem. Agora, como se costuma dizer, fiquei sem palavras. Só não te dou um abraço porque tenho receio que seja mal interpretado.
- Tolo!
- Não. A sério. É que essa letra que tens desenhada na tua t-shirt parece-me um coração deitado, em repouso. Parece-me um coração que não está a bater tudo o que merece bater. Por isso não me ia sentir bem... Tolices minhas, eu sei. Afinal nem nos conhecemos! Mas parece-me um coração que anda à procura de alguma coisa...
- Mas agora conhecemos.
- Mas agora eu vou embora.
- E eu acompanho-te...... até à saída!

Riram-se os dois da pequena pausa que ela fez e foram juntos até à saída, onde se despediram.
Ela voltou para a cadeira e para o contador.
Ele voltou-se para a saída folheando apressadamente o moleskine para ver se ela tinha escrito alguma coisa. Em vão, claro. Ela não escreveu.
Quando chegou às escadas e voltou a olhar para a cadeira e não a viu, pensou: "loucura, é não fazer determinadas loucuras".
Voltou para trás, entrou na primeira sala, com imagens de edifícios de arroz, esparguete e tagliatelle, onde ela estava com os olhos a marejar de braços abertos à espera do abraço dele.

quarta-feira, junho 25, 2008

Utopia, 15:45 - [2.º Acto]

Ela acompanhou-o apenas até à primeira sala, onde estavam as fotografias de edifícios feitos de arroz, esparguete e tagliatelle. Não podia abandonar a entrada...

- Claro, compreendo. Responsabilidade é responsabilidade.
- Pois. E eu preciso disto.
- Mas posso deixar-te uma coisa para não ficares sozinha?
- Sim, podes. Queres que te guarde essa carteira? Claro que o faço!
- Não... Não é nada disso. Podes não acreditar no que te vou dizer -acho mesmo normal que não acredites, porque te vai parecer coincidência a mais-, mas a primeira música que ouvi quando vinha para cá, foi essa. E comecei a pensar no significa o título. Bem... duzentos quilómetros deu para pensar bastante. Deu até para escrever. E era isso que te queria deixar. Apesar de tudo é um pedacito deste pateta que te fica a fazer companhia.

Chamar-se a ele próprio de pateta serviu, como imaginam, para arrancar um sorriso dela. Belíssimo. Radiante.
Então pegou no moliskine preto que lhe tinham oferecido no aniversário, abriu-o numa página com o título Se ele fosse um gato e deu-lho.

- Escrevi isso por causa dessa canção. Agora, como não me podes acompanhar, vou até lá ao fundo ver afinal o que é esta utopia.
- Eu ia. A sério que ia...
- Deixa-te ficar. Mas, por favor, lê... gostava de ter uma opinião tua.

Ela começou ler:
...felizmente, como qualquer outra forma de arte, a vida presta-se a interpretações ambíguas. Sem muito esforço, o contrário do que sentimos, dizemos e fazemos é, também, verdade.




sábado, junho 21, 2008

Utopia, 15:45 - [1.º Acto]

A última viagem que ele fez não tinha Utopia como destino, mas uma cidade à qual dificilmente resistimos no que as paixões da alma diz respeito.
Como se sabe, em Utopia todas as cidades se repetem: quem vê uma, viu todas.
Esta onde ele foi, como todas as outras, é única.
Mas por uma razão que só o acaso explica, ele acabou o dia numa Utopia.

Ela estava à entrada, sentada numa cadeira alta, vigilante e elegante.
Quando ele entrou, o contador que ela tinha na mão disparou mais uma vez.
- Com que número fui contemplado?
- Três!
- Só entraram 3 pessoas aqui?
- Hoje, sim.
- Queres que entre e saia muitas vezes para atingires um recorde?
- Não... isso era batota!
- Óptimo. Ainda bem que é batota. Vamos a isso.
O contador disparou umas quatro vezes seguidas e a boa disposição que se gerou entre eles transformou em sorrisos todas as fotografias que estavam penduradas nas paredes brancas e o silêncio, em risos.
Só faltava o Sol para reforçar com sombras o brilho dos olhos deles. Mas numa cave... só se um deles se transformasse num Sol...
- Anda comigo.
- Não posso. Estou presa a esta cadeira a contar pessoas.
- Anda.
Foi.
- O que estás a ouvir?
- A música que estou a ouvir?
- Sim. Qual é?
- Neste momento, "Where is my love".
- Cat Power.
- Sim.

quarta-feira, junho 18, 2008

Os outros.

Ontem voltaram à praia dos livros de areia.
Aliás, encontraram-se lá. Ela estava por ali perto e ele foi lá ter.
A água continuava cor-de-laranja como da última vez, mas o areal de livros estava mais colorido. Claro que não o posso garantir, mas creio que havia tantas cores quantas letras tem o alfabeto que eles usam para construir as suas histórias.
Mas esperava-os outras mudanças daquele cenário...
Primeiro, quando decidiram entrar na água, repararam que o mar mudava de cor. Mudava de cor quando ficavam parados; mudava de cor quando nadavam; mudava de cor quando se beijavam; mudava de cor quando falavam apenas com os olhos; mudava de cor quando riam; mudava de cor quando gritavam...
Ele foi o primeiro a sair da água para ver à distância aquele espectáculo, enquanto ela fazia todas as tropelias para a água mudar de cor.
Depois trocaram.
A cor dos olhos dela, claro, acompanhava as mudanças da cor da água.
Se eles tiveram dias felizes juntos, este foi, com toda a certeza, dos melhores.
Quando foram embora, decidiram que o deviam fazer tentando pisar tantos livros amarelos quanto possível.
Foi nessa altura que deram conta de outra mudança no cenário: um casal a trabalhar de modo frenético em cima de uma mesa de madeira.
Como tinha escurecido, não dava para ver o que faziam eles.
Corajosa, ela aproximou-se e perguntou-lhes porque estavam tão atarefados e o que estavam a fazer.
E eles responderam, em uníssono, com uma voz doce e quente: "livros".

domingo, junho 15, 2008

Breathe, keep breathing




















Faço uma pausa, depois de respirar fundo tudo o que me possa animar.
Tudo o que me dá ânimo.
Prolongo esse momento o tempo que posso, para me sentir bem aqui "dentro".
Prolongo esse momento o tempo que posso, para te ter aqui comigo.
Só comigo.
Só para mim.
Faço uma pausa, antes de perceber que significado poderão ter os próximos gestos.
Faço uma pausa, não um intervalo, para que os próximos passos sejam dados, de preferência, na tua companhia.
Porquê?
Porque é preciso que assim seja.
Porque o caminho tem largura para irmos lado a lado.
Porque o caminho tem de ter mais do que as minhas pegadas.

sexta-feira, junho 13, 2008

O meu nome

É casa.
O meu nome é casa.
Não com o sentido que lhe é dado pelos construtores, mas com o sentido que lhe é dado pelos poetas, quando dizem que a casa é onde está o coração; ou com o sentido que lhe é dado pelos filósofos, quando dizem que a alma é uma morada.
Por isso dou comigo frequentemente a pensar que é esse o meu nome: casa.
Não sou feminino nem masculino; não sou alegria nem tristeza; não sou dor nem sou prazer... Apenas e tão só: "não sou".
Sou uma coisa em construção a quem um escritor meu amigo deu uma memória igual à de Funes e se vai fazendo com os pedaços de mim que deixo no coração de quem me quer bem.
E é assim, dotado desta memória, que passo algum do meu tempo a ver como o meu nome se vai construindo e se ficarei bem sempre que partir.

segunda-feira, junho 09, 2008

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É provável que hoje se sinta um profundo silêncio não muito longe daqui.
Se tal acontecer, acreditem: é porque ele se vai transformar em areia e em água salgada.
Em mãos de ar que vão acariciar tudo o que lhe apetecer tocar.
Se esse silêncio acontecer, será porque ele vai permitir que o mundo descanse um pouco.
Nem que seja por um dia, vai tomar-lhe o lugar.

sexta-feira, junho 06, 2008

Se ele fosse um gato...

Cansado.
Visivelmente cansado, deixou esquecido, em cima sua mesa, o bloco de notas onde escreve e desenha pensamentos que costuma guardar apenas para si.
Ficou esquecido, aberto na página onde escreveu apenas duas frases:

"Felizmente, como qualquer outra forma de arte, a vida presta-se a interpretações ambíguas. Sem muito esforço, o contrário do que sentimos, dizemos e fazemos é, também, verdade."

Poderá parecer um paradoxo escrever isto num dia em que ele, mesmo que tentasse, não conseguiria disfarçar o prazer que o invadiu numa luta desigual.
Deliciosamente desigual.
Não consigo descrever esse dia -ou o que ele fez com que esse dia fosse- melhor do que o fez um poeta francês, quando fez um Sócrates imaginário relatar um dos seus melhores dias -"un jour de mes beaux jours..."- a um parceiro caminhante, demonstrando que as linhas da sua vida partiram todas daquele dia.
Tal como este filósofo imaginário, também ele sabia que tinha -e tem sempre que quer- o poder de fazer uma pausa ou de continuar a andar.
De ficar "suspenso" ou então a ganhar asas e voar, bastando para isso que encontre uma parte de si no momento e no "lugar" certo.
Nesse dia encontrou-a. Ele sabia que a ia encontrar.
Como todas as pessoas, ele tem em si todas as pessoas que conhece e todos os sítios que visita... mas isso também outro poeta já o disse de uma forma bem mais eloquente do que eu poderia fazer aqui.
Mas o contrário desta sentença também é verdade.
É bom acreditar que seja: que um pouco de nós está em todos os lugares onde estivemos e em todos os corações que visitamos.
Mesmo desconhecendo o estado em que esses nossos pedaços se encontram quando os encontramos, acreditem, é bom encontrá-los.
Pois a ele, mesmo consciente desta dúvida, não o vi menos tranquilo quando sentiu que ia ao encontro de si.
De uma parte de si.
Pelo contrário.
Ele reúne muito mais do que dois sentimentos. Como todas as pessoas.
E sente-os de todas as maneiras que consegue imaginar.
E poder ver-se a si próprio com os olhos de outro é uma oportunidade rara que jamais se pode dispensar.
Por isso ele terá escrito que é uma forma de arte, esta tarefa de viver.
E a imagem que me ocorre para o ilustrar, é a do seu gato a procurar o seu ombro ao final da tarde e adormecerem os dois em posição fetal na cama ainda raiada de Sol. Ou a fingirem que dormem.
Sob as suas mãos e sob o corpo do gato, uma página manuscrita de um moleskine preto que não consigo ler.


terça-feira, junho 03, 2008

Let down

segunda-feira, junho 02, 2008

Os dias

Não os conto. Não os desconto.
Não os somo, nem os subtraio.
Aceito-os com tudo o que os diferencia, assim como os aceito pelo que têm de igual.
Aceito-os com a passividade de quem não se interessa por eles.
Não me interessam quando, como agora, me sinto capaz de os moldar ao sabor do que nos dá prazer e nos tranquiliza.
O tempo, de facto, não tem qualquer importância.
A não ser o tempo que levamos para perceber a sua insignificância.
Comparados com aquilo que podemos fazer deles... "os dias" não valem nada.