Deixei-o ficar onde estava.
Não insisti.
Percebi que ele ia ficar ali o tempo que achava que devia ficar.
Limitei-me a tirar-lhe a flor da mão.
Ele é um símbolo de vida e não fazia sentido estar a amparar uma flor que tinha perdido a sua...
Lancei-me outra vez nas ruas da cidade.
Desta vez sem objectivo.
Apenas vendo-a como objecto de prazer e a descobri-la como objecto do meu projecto.
Eu... que tinha visto até hoje a cidade apenas como um cenário passivo para actores desconhecidos e em número infinito, descobri que tenho em mim uma vontade indómita de a abraçar.
De ser um demiurgo moderado que ama o seu espaço pelo que é e, sobretudo, pelo que pode vir a ser.
Consigo vê-la do céu e do chão ao mesmo tempo.
Misturo os traçados com os ambientes que me envolvem e deixo que sejam os sons a guiar-me.
Os cheiros e as cores também.
Eu vou mudar a cidade que trago em mim.
domingo, setembro 21, 2008
quinta-feira, setembro 18, 2008
A última vez que o perdi
Perdi-o.
Consegui acompanhá-lo durante todo o dia.
Sempre à distância.
Acabei por conhecer uma cidade que não conhecia e deixei-me encantar por ela.
Um encantamento que me custa agora uma dor sem perdão.
Perdi-o no final de tarde buliçoso da cidade e passei o resto do dia e da noite à procura dele.
Finalmente encontrei-o.
Sentado no chão, encostado a um muro a segurar uma flor gigante.
Já sem vida.
Consegui acompanhá-lo durante todo o dia.
Sempre à distância.
Acabei por conhecer uma cidade que não conhecia e deixei-me encantar por ela.
Um encantamento que me custa agora uma dor sem perdão.
Perdi-o no final de tarde buliçoso da cidade e passei o resto do dia e da noite à procura dele.
Finalmente encontrei-o.
Sentado no chão, encostado a um muro a segurar uma flor gigante.
Já sem vida.
terça-feira, setembro 16, 2008
As flores dos olhos
Estive quase para o acordar. Se é que estava a dormir...
A verdade é que ele estavam com os olhos bem fechados, deitado, imóvel, como se estivesse a olhar para o céu sem precisar de o ver.
Eu sei que as lágrimas são sempre salgadas. Surjam elas por dor ou por felicidade.
Não me devia preocupar, portanto...
Mas a cara dele estava já tão marcada pelo carreiro de lágrimas secas e pelo brilho da luz, ainda que pouca, reflectida nas que iam escorrendo...
Antes de se deitar escreveu uma notas no seu bloco de capas pretas.
Foi a primeira vez que o fez. Antes de se deitar.
Agora, depois ter visto o que vi de manhã, desconfio que deve ter escrito uma fórmula mágica qualquer que transformou o tecto do quarto em céu.
Ao redor dos seus olhos e ao longo dos carreiros das lágrimas, estavam coladas centenas de estrelas minúsculas.
Mas o efeito de flor que causavam não escondia o seu olhar.
Hoje tenho de o acompanhar de perto.
A verdade é que ele estavam com os olhos bem fechados, deitado, imóvel, como se estivesse a olhar para o céu sem precisar de o ver.
Eu sei que as lágrimas são sempre salgadas. Surjam elas por dor ou por felicidade.
Não me devia preocupar, portanto...
Mas a cara dele estava já tão marcada pelo carreiro de lágrimas secas e pelo brilho da luz, ainda que pouca, reflectida nas que iam escorrendo...
Antes de se deitar escreveu uma notas no seu bloco de capas pretas.
Foi a primeira vez que o fez. Antes de se deitar.
Agora, depois ter visto o que vi de manhã, desconfio que deve ter escrito uma fórmula mágica qualquer que transformou o tecto do quarto em céu.
Ao redor dos seus olhos e ao longo dos carreiros das lágrimas, estavam coladas centenas de estrelas minúsculas.
Mas o efeito de flor que causavam não escondia o seu olhar.
Hoje tenho de o acompanhar de perto.
sexta-feira, setembro 12, 2008
Para apagar, é preciso escrever.
Mais cedo ou mais tarde... era inevitável que acontecesse? Era evitável que acontecesse?
A verdade é que aconteceu.
Ele saiu com aquele nó de algodão no peito a sentir e sem pensar, que ia correr o mundo a pé.
Não o fez, claro.
O mundo é pequeno de mais para guardar todas as palavras que ele ia ter que dizer se dissesse o que devia dizer...
Limitou-se a ir de novo à praia da pegadas azuis e multiplicou-se vezes sem fim.
Reuniu aquelas criaturas iguais a ele e mandou-os numa nova missão: a ouvir música, deviam caminhar em conjunto por todo o tipo de caminhos e estradas de modo a que do céu se visse que era o nome dela que andavam a escrever.
A verdade é que aconteceu.
Ele saiu com aquele nó de algodão no peito a sentir e sem pensar, que ia correr o mundo a pé.
Não o fez, claro.
O mundo é pequeno de mais para guardar todas as palavras que ele ia ter que dizer se dissesse o que devia dizer...
Limitou-se a ir de novo à praia da pegadas azuis e multiplicou-se vezes sem fim.
Reuniu aquelas criaturas iguais a ele e mandou-os numa nova missão: a ouvir música, deviam caminhar em conjunto por todo o tipo de caminhos e estradas de modo a que do céu se visse que era o nome dela que andavam a escrever.
segunda-feira, setembro 08, 2008
A rapariga de papel
Pegou num lápis e numa folha de papel com uma gana tal, que parecia que ia criar um mundo novo. Como se este já não lhe servisse.
Ou não tivesse remédio.
Engano.
Aquele ímpeto tinha outra razão de ser.
Não escreveu, não desenhou, não cortou o papel nem fez qualquer construção.
Ficou a olhar para a folha, branca, a imaginar um pátio.
Um mundo só dele.
Nesse pátio ela estava numa das sombras, protegida do Sol.
Atrás dela, estava ele a segredar-lhe:
Ou não tivesse remédio.
Engano.
Aquele ímpeto tinha outra razão de ser.
Não escreveu, não desenhou, não cortou o papel nem fez qualquer construção.
Ficou a olhar para a folha, branca, a imaginar um pátio.
Um mundo só dele.
Nesse pátio ela estava numa das sombras, protegida do Sol.
Atrás dela, estava ele a segredar-lhe:
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