Já o tinha visto a recolher as suas lágrimas naquele instrumento que só a custo posso chamar de caneta, mas com o qual ele consegue escrever alguns parágrafos em folhas lisas de papel branco.
Sei que quando usa essa espécie caneta aproveita todas as lágrimas - as que chora de dor e as que chora não sofrendo - e sei também que dedica as poucas linhas que consegue escrever, a celebrar as suas amizades quando mais lhes sente o seu pulsar no coração.
Certa vez vi-o, decidido, durante dias a fio, a transformar uma cidade num céu. Confesso que me deixei encantar por aquele gesto pueril. Confesso até que gostava de o ter acompanhado naquela tarefa que só em sonhos parece poder acontecer.
Cobriu então o chão da maior divisão da casa com folhas de papel, em regime cuidadosamente ortogonal como se fosse a planta de uma qualquer cidade hipodâmica.
Nos dias seguintes deambulou sem regra por cima daquela cidade e deixou que as suas lágrimas pingassem de alto sobre as folhas. Ao fim de uma semana, armado de lápis de todas as cores, lançou-se ao chão e desenhou os contornos de todos os pingos que tinham deformado suavemente as folhas.
Depois de desenhados todos os contornos, aquele conjunto de folhas perdeu a sua ordem, porque aquilo que antes representava o chão, transformou-se numa espécie de céu com estrelas de todas as cores e tamanhos.
Tudo isto se passou há cerca de dois anos, mas ainda hoje, antes de dormir, passeia-se descalço naquela divisão da casa com o sorriso de quem tem o poder de voar quando quer e inverter as lógicas do cosmos.
De vez em quando diz para si próprio: "só porque o sentes, não quer dizer que esteja aqui".
E os seus olhos ficam brilhantes como se deles fosse nascer a estrela que perdeu.
terça-feira, maio 27, 2008
terça-feira, maio 20, 2008
As pegadas azuis
Desta vez foi a correr como se soubesse qual era o seu destino e ao que ia.
Só parou quando o mar já era o seu céu e o corpo lhe pedia descanso e calor.
O areal que atravessou, azul-escuro, não deixava perceber quaisquer marcas das suas pegadas ou de outros que por ali tivessem andado.
Aquela praia, onde tudo parecia invertido, estava vazia.
Não tinha gente.
Não mostrava razões para uma caminhada tão decidida.
Não era de um encontro que se tratava.
Não tinha Sol que o aquecesse, porque o Sol estava noutro sítio que não ali.
Não tinha crianças disfarçadas de anjos a brincar com a areia.
Não tinha mais do que o que faz com que uma praia seja uma praia.
Estar ali decididamente sem qualquer objectivo: era esse o seu propósito.
Sentir que podia desaparecer.
Sentir-se como se fosse a única criatura no seu mundo, com a responsabilidade de tratar dele.
Quando saiu da água e voltou ao céu que lhe dá o ar que precisa e merece, viu que afinal não estava sozinho.
Todos os pares das suas pegadas tinham-se transformado nele.
Dezenas de criaturas iguais a ele olhavam-no fixamente e começaram a sua vida quando ele encheu os pulmões…
A imagem de um exército de eus não lhe afectou o ego.
Não o aproveitou para realizar todas as maravilhas e travessuras que podemos imaginar sendo mais do que um.
Ao primeiro, mandou-o para Norte com uma maçã assada numa das mãos, a bater a todas as portas que estivessem abertas e ficar na casa onde houvesse mais maçãs assadas.
A dez deles, mandou-os para Sul em missão difícil: perguntar a todos com quantos se cruzassem se sabiam o seu nome e transformá-los em anjos.
A mais oito, mandou-os para Nascente —não sem antes lhes pedir que fizessem uma caminhada pelo areal— com a tarefa de se transformarem na sombra de todos quantos não se conseguem ver a si próprios.
Ao que sobrou, pediu-lhe que ficasse um momento com ele, que o abraçasse e o levasse até casa.
Só parou quando o mar já era o seu céu e o corpo lhe pedia descanso e calor.
O areal que atravessou, azul-escuro, não deixava perceber quaisquer marcas das suas pegadas ou de outros que por ali tivessem andado.
Aquela praia, onde tudo parecia invertido, estava vazia.
Não tinha gente.
Não mostrava razões para uma caminhada tão decidida.
Não era de um encontro que se tratava.
Não tinha Sol que o aquecesse, porque o Sol estava noutro sítio que não ali.
Não tinha crianças disfarçadas de anjos a brincar com a areia.
Não tinha mais do que o que faz com que uma praia seja uma praia.
Estar ali decididamente sem qualquer objectivo: era esse o seu propósito.
Sentir que podia desaparecer.
Sentir-se como se fosse a única criatura no seu mundo, com a responsabilidade de tratar dele.
Quando saiu da água e voltou ao céu que lhe dá o ar que precisa e merece, viu que afinal não estava sozinho.
Todos os pares das suas pegadas tinham-se transformado nele.
Dezenas de criaturas iguais a ele olhavam-no fixamente e começaram a sua vida quando ele encheu os pulmões…
A imagem de um exército de eus não lhe afectou o ego.
Não o aproveitou para realizar todas as maravilhas e travessuras que podemos imaginar sendo mais do que um.
Ao primeiro, mandou-o para Norte com uma maçã assada numa das mãos, a bater a todas as portas que estivessem abertas e ficar na casa onde houvesse mais maçãs assadas.
A dez deles, mandou-os para Sul em missão difícil: perguntar a todos com quantos se cruzassem se sabiam o seu nome e transformá-los em anjos.
A mais oito, mandou-os para Nascente —não sem antes lhes pedir que fizessem uma caminhada pelo areal— com a tarefa de se transformarem na sombra de todos quantos não se conseguem ver a si próprios.
Ao que sobrou, pediu-lhe que ficasse um momento com ele, que o abraçasse e o levasse até casa.
terça-feira, maio 13, 2008
A apanhadora de conchas
No dia em que ela somou mais um mês aos seus anos, ele achou que devia celebrar a vida, não apenas a dela, mas a Vida. A ideia de como o fazer foi-lhe dada na noite anterior, numa situação em que, por magia, as sombras tinham mais vida do que aqueles que davam vida às sombras. Decidiu então trocar de posição com a sua sombra durante esse dia. Depois de um abraço que ele e a sua sombra deram exactamente ao meio-dia, passou a gozar de todas as sensações que a sua sombra antes tivera gozado. Nesse dia, ele pode ser relva, água, calma e agitada, pode ser de qualquer cor e de qualquer material. Pode estar em duas ruas ao mesmo tempo, desde que estas fizessem uma esquina. Pode ser o próprio céu, subir a árvores e ser um ramo. Pode estar dentro e fora dos edifícios. Pode ser o corpo de qualquer pessoa que se lhe atravessasse à frente. Pode subir a qualquer prédio e espreitar pelas janelas. Pode gozar com os comboios que o tentavam magoar quando se deitava no carris.
Antes que o dia acabasse, cansado, foi deitar-se à frente do banco de jardim que passou a ser seu sem que deixasse de ser de quem achasse que tinha o direito de o ter também.
Ali, deitado no chão a olhar o vulto que lhe dava ânimo, feito tijolo da calçada, foi pisado por todos quantos por ali passavam sem que se magoasse com isso.
Entretanto passou a Sophia e teve de terminar o festim que estava a celebrar desde essa manhã, porque ela o olhou nos olhos e lhe disse que não era assim que ele devia estar a comemorar: devia andar a apanhar conchas e escrever nelas os nomes de todos os que o amam.
Antes que o dia acabasse, cansado, foi deitar-se à frente do banco de jardim que passou a ser seu sem que deixasse de ser de quem achasse que tinha o direito de o ter também.
Ali, deitado no chão a olhar o vulto que lhe dava ânimo, feito tijolo da calçada, foi pisado por todos quantos por ali passavam sem que se magoasse com isso.
Entretanto passou a Sophia e teve de terminar o festim que estava a celebrar desde essa manhã, porque ela o olhou nos olhos e lhe disse que não era assim que ele devia estar a comemorar: devia andar a apanhar conchas e escrever nelas os nomes de todos os que o amam.
terça-feira, maio 06, 2008
Segredo
Por dois dias consecutivos ela apareceu-lhe em forma de anjo.
Na primeira vez, ela limitou-se a sentar-se ao seu lado num banco de jardim -recolhendo suavemente as suas asas pretas- e a conversar com ele sobre qual deveria ser a cor dos coelhos, sempre que eles se abraçam. Se deveria mudar ou não. Ela quis sentir o timbre da voz dele e ver o reflexo dos seus olhos nos olhos dele, quando ele fantasiava sobre histórias que só ele sabia imaginar. No fundo, queria saber se a sua ausência era motivo de alguma dor ou se ele mantinha a tranquilidade que um dia lhe tinha confessou ter por tê-la conhecido.
Antes de ir embora, voou à volta dele e criou uma almofada com os flocos de neve que caiam das árvores, para que ele encostasse a cabeça, pois tinha adormecido durante a conversa.
Ele estava cansado.
Na segunda vez, ela estava à espera que ele aparecesse.
Como já conhecia a nave espacial que ele costumava usar para se deslocar nos sonhos, ficou radiante ao vê-lo a aproximar-se. Sem que ele desse conta, ela recolheu outra vez as asas e ficou à espera que ele a abordasse.
Mas desta vez ele estava visivelmente triste, o que a inquietou bastante, pois faltava ainda muito tempo para que pudesse regressar.
Lembrou-se então que se o desafiasse a jogar o jogo do cubo gigante amarelo que eles inventaram um dia na praia, podia descobrir o motivo da sua tristeza.
Mas ele não se lembrava do jogo... e isso só podia acontecer se ele estivesse a ser consumido por saudades.
Quebrando então todas as regras, ela abraçou-o com as suas asas pretas e segredou-lhe ao ouvido...
Na primeira vez, ela limitou-se a sentar-se ao seu lado num banco de jardim -recolhendo suavemente as suas asas pretas- e a conversar com ele sobre qual deveria ser a cor dos coelhos, sempre que eles se abraçam. Se deveria mudar ou não. Ela quis sentir o timbre da voz dele e ver o reflexo dos seus olhos nos olhos dele, quando ele fantasiava sobre histórias que só ele sabia imaginar. No fundo, queria saber se a sua ausência era motivo de alguma dor ou se ele mantinha a tranquilidade que um dia lhe tinha confessou ter por tê-la conhecido.
Antes de ir embora, voou à volta dele e criou uma almofada com os flocos de neve que caiam das árvores, para que ele encostasse a cabeça, pois tinha adormecido durante a conversa.
Ele estava cansado.
Na segunda vez, ela estava à espera que ele aparecesse.
Como já conhecia a nave espacial que ele costumava usar para se deslocar nos sonhos, ficou radiante ao vê-lo a aproximar-se. Sem que ele desse conta, ela recolheu outra vez as asas e ficou à espera que ele a abordasse.
Mas desta vez ele estava visivelmente triste, o que a inquietou bastante, pois faltava ainda muito tempo para que pudesse regressar.
Lembrou-se então que se o desafiasse a jogar o jogo do cubo gigante amarelo que eles inventaram um dia na praia, podia descobrir o motivo da sua tristeza.
Mas ele não se lembrava do jogo... e isso só podia acontecer se ele estivesse a ser consumido por saudades.
Quebrando então todas as regras, ela abraçou-o com as suas asas pretas e segredou-lhe ao ouvido...
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