domingo, março 23, 2008

O amor, num dedo


Ontem conseguiram, finalmente, almoçar sozinhos.
No mesmo café e na mesma mesa de sempre mas, desta vez, sozinhos.
Como foi na véspera da partida dela, o almoço foi ensombrado pelas saudades que já começavam a sentir.
Apesar de terem combinado um pequeno-almoço para hoje, aí sim, para se despedirem, o almoço foi, acima de tudo, um exercício de imaginação para remeter aquela partida para um tempo distante.

Hoje, ela apareceu à hora marcada.
O mesmo café.
A mesma mesa no canto do café.
Esperou o tempo que pôde.
Esperou até ao limite e saiu apressadamente para apanhar um táxi, sem que ele tenha aparecido.
Enquanto esperava por ele, começou a chover e o ar dentro do café ficou abafado e húmido. Foi então que apareceu, na janela pela qual olhava insistentemente para a paragem de autocarro, um “gosto de ti” desenhado com letras apressadas.
Enquanto a humidade segurava aquelas letras, antes de se transformarem em gotas de água, ela não resistiu a pensar que foi ele…
Ela sabe que aquela cabeça louca, docemente maquiavélica, era capaz de proezas daquele género. Que aquela era a forma de ele se despedir deixando uma imagem indelével na sua memória, para assim monopolizar todos os seus sentimentos.
Ela sabia que ele escreveu aquelas letras a seco, no vidro, para que aparecem sempre que chovesse… e para que sempre que chovesse ela se recordasse: “gosto de ti”. Sabia que ele queria que ela pensasse que nos dias de Sol, as letras estariam lá na mesma, mas só eles os dois sabiam disso.

Quando ela chegou ao hotel, tinha uma mensagem à sua espera na recepção.

terça-feira, março 18, 2008

Dúvidas

Aquela imagem de uma lágrima cristalina à beira de um olho, acompanhou-o até se render ao cansaço e dormir.

Porque soltou ela aquela lágrima?

Por um motivo que nunca se preocupou explicar, ele é daquelas pessoas que se relacionam poeticamente com o mundo e que acham que só por ironia se pode chamar "pensamento livre" àquele que procura investir-se da verdade aparente das ciências exactas e dos raciocínios lógicos.
Ele deseja liberdade para o seu pensamento de uma forma impulsiva, para que seja “serpenteante” e “helicoidal”; para que “olhe” para trás e para a frente ao mesmo tempo; para que seja “horizontal” e “vertical” em simultâneo.
Por isso não distingue entre causas e efeitos quando o que está em causa é ela.
Por isso lhe dói ficar na incerteza de não saber se é alguma alegria que segura aquela lágrima para prolongar o seu prazer; ou se é alguma tristeza que anuncia que outras lágrimas virão.
Se se soubesse quão grande é a impotência que ele sente nesses momentos, o mundo encarregar-se-ia de dar cores diferentes a essas lágrimas.
Pelo menos isso!
E agora compreendo melhor, também, porque decidiu ele ser tão “transparente” para ela.
Se fosse um espelho talvez fosse imune: mas sendo como é, é atravessado pelo que vê e pelo que sente... sem qualquer disciplina.
No final de todos os dias, promete a si mesmo fazer um “projecto de disciplina”.
Mas assusta-o que apenas o consiga com a ausência da sua liberdade.
Ou que tome a liberdade de se ausentar.
Mas confia que aquele sorriso que fica entre parêntesis quando ela sorri, jamais o permitirá.

segunda-feira, março 17, 2008

Momentos

Estava na praia e observava a névoa junto ao mar. As gaivotas andavam por ali, deixando marcas na areia e gritando ao vento. Ele fixava a rebentação suave das ondas e tentava ouvir o que o mar tinha para lhe dizer. Mas hoje o mar não o estava a ajudar muito... Há anos que cumpria aquele ritual: quando tinha uma decisão importante a tomar ia até aquele lugar, na praia, e conversava com o mar. Habitualmente saía de lá com uma resposta. Mas hoje parecia ser um dia diferente. Os rumores marítimos eram imperceptíveis, misteriosos. Sentia-se perdido. Talvez até abandonado. Afinal aquele era o seu último reduto, o seu espaço mais íntimo. O som das ondas, a imensidão da água, aconchegavam-no, não o assustavam. Mas hoje não o ajudavam, não lhe davam a paz que ansiava.
Levantou-se. Passeou pela areia seguindo o percurso marcado pelas gaivotas. Perdeu-se. Aquele traçado labiríntico quase o distraiu da razão principal de ali estar… Voltou ao seu lugar favorito. Reparou então nas nuvens que formavam uma espiral na linha do horizonte: nasciam no mar, avermelhadas, subiam serpenteando em tons de rosa até atingirem o céu, já cor da neve. Aí misturavam-se com o azul cinza que anunciava a noite. E era belo. Aquelas nuvens pareciam a escada que conduz às portas de deus. Apeteceu-lhe subir por elas... Levantou-se decidido a fazê-lo! Esperava ouvir uma resposta e afinal ela estava ali, à sua frente. Desta vez o mar não falara com ele: mostrara-lhe o caminho!
Mal tinha dado os primeiros passos, a bola de uma criança atingiu-o nas costas:
"-Desculpe, senhor”.
"-Não faz mal", sorriu, pálido.
"-Quer jogar comigo? Não tenho pai e a minha mãe não sabe jogar."
"-Hoje não posso, obrigado. Talvez um dia destes..."
Talvez um dia destes… Um dia destes… (ecoou o grito de uma gaivota)
Ponderou então ir embora e voltar no dia seguinte. O menino chamou-o para lhe dizer adeus e pedir que não se esquecesse de voltar. Sorriu-lhe. E seguiu, saindo da praia.
Olhou para trás, para a escada de nuvens como a despedir-se da tentação de a subir. E olhou de novo para o menino que, sem saber, o tinha demovido de o fazer.
"Amanhã é outro dia, o mar falará comigo!... E um dia destes, quem sabe…"

sexta-feira, março 14, 2008

Escrever "amizade" - I

Passou uma noite a pensar em tudo o que lhes está a acontecer.
Sabia que era natural que a partir de certa altura todos os sentimentos se fundissem numa coisa informe e indescritível.
Que a dor e a alegria seriam, uma e outra vez, dois estados de alma sinónimos.
Mas naquela noite quis perceber porque tinha de ser assim.
Achou que não conseguiria viver tudo aquilo “apenas” à flor da pele.
A conclusão foi tranquilizadora.
Melhor: procurou a conclusão mais tranquilizadora.

“Uma amizade não correspondida…, é muito mais dolorosa que um amor não correspondido”.
Mais tarde voltarei as estas palavras.
Agora não as posso continuar porque, acreditem ou não, estou a escrever com as suas lágrimas.

quinta-feira, março 13, 2008

História banal

Tudo começou de forma inesperada e surpreendente. Um percalço da vida quotidiana daqueles que acontecem uma única vez. A expressão é redundante mas verdadeira: uma única vez. Porque algo assim não acontece, não pode acontecer mais do que uma vez. E portanto essa vez é única em número e em sensações.
É verdade que, mesmo antes de acontecer alguma coisa, alguns pensamentos lhe ocorriam mas, por lhe parecer algo tão improvável e distante, logo os afastava. Por vezes aquele olhar de admiração surgia. Umas vezes salpicado de curiosidade, outras vezes de desejo de um maior conhecimento, sempre com grande vontade de aproximação. No entanto, porque estavam em planos e em mundos diferentes, todas estas ideias eram de imediato banidas, porque inalcançáveis, senão mesmo interditas.
Um dia o encontro deu-se. Um encontro de ideias e de sensações. Mais tarde a percepção de gostos comuns e alguns desafios intelectuais que o acaso fez surgir, aumentou a sensação de ter acontecido algo raro. Um encontro que agora se deseja que ultrapassasse o mundo etéreo das ideias e dos gostos pessoais. (É espantoso, como se consegue estar perto de alguém durante uma vida, sem realmente a ver!)
Sem saber que rumo tomará ou mesmo como terminará este encontro, sabe que nada voltará a ser como antes. A vida tem estes acasos fascinantes, estes acontecimentos, estes (como lhe chamei) “percalços” capazes de modificar a visão do mundo e transformar o sabor a um quotidiano raras vezes interessante. É uma história inacabada, como a de um livro cujo autor receia escrever o final, uma história quase penosa pela ansiedade que gera e pelo prazer que dá. Aguarda novos dias, cujo texto o tempo escreverá.

Palavras que ficam por dizer

Ficam por dizer, não porque não consiga dizê-las, mas porque desaparecem no momento em que as pensa, transformando-se numa espécie de algodão que fica no peito.
Doce.
Algodão doce.
As palavras que ficam por lhe dizer, ficam por dizer porque jamais poderão descrever o seu olhar quando os seus olhos exigem: gosta de mim.
Um dia percebeu que no meio do algodão que retinha no peito, encontrou, junto ao seu coração, outro coração igualmente adocicado, pingando de felicidade por ter encontrado uma amizade que só os dias de sol aberto e as mentes saudáveis podem fazer nascer.
O algodão derreteu.
O doce ficou.

quarta-feira, março 12, 2008

O tempo está do nosso lado

Trago o tempo comigo. À flor da pele, claro.
Sei que o poder do início de uma aventura nos pode iludir; que de futuro terá o seu próprio rumo. Uma espécie de vida própria que se alimentará de nós.
Por isso trago o tempo comigo.
Para que cada momento que estou contigo, contenha todos os momentos que já partilhámos.
Para estar contigo, não quero, não posso e não me imagino a pensar no passado ou no futuro.


o tempo está do nosso lado

segunda-feira, março 10, 2008

Porque sim

Porque gosto de ti e quero partilhar um espaço; Porque gosto de ti e quero construir algo em comum; Porque gosto de ti e me apetece iniciar uma aventura.
Porque gosto de ti?
Porque sim!