Ontem conseguiram, finalmente, almoçar sozinhos.
No mesmo café e na mesma mesa de sempre mas, desta vez, sozinhos.
Como foi na véspera da partida dela, o almoço foi ensombrado pelas saudades que já começavam a sentir.
Apesar de terem combinado um pequeno-almoço para hoje, aí sim, para se despedirem, o almoço foi, acima de tudo, um exercício de imaginação para remeter aquela partida para um tempo distante.
Hoje, ela apareceu à hora marcada.
O mesmo café.
A mesma mesa no canto do café.
Esperou o tempo que pôde.
Esperou até ao limite e saiu apressadamente para apanhar um táxi, sem que ele tenha aparecido.
Enquanto esperava por ele, começou a chover e o ar dentro do café ficou abafado e húmido. Foi então que apareceu, na janela pela qual olhava insistentemente para a paragem de autocarro, um “gosto de ti” desenhado com letras apressadas.
Enquanto a humidade segurava aquelas letras, antes de se transformarem em gotas de água, ela não resistiu a pensar que foi ele…
Ela sabe que aquela cabeça louca, docemente maquiavélica, era capaz de proezas daquele género. Que aquela era a forma de ele se despedir deixando uma imagem indelével na sua memória, para assim monopolizar todos os seus sentimentos.
Ela sabia que ele escreveu aquelas letras a seco, no vidro, para que aparecem sempre que chovesse… e para que sempre que chovesse ela se recordasse: “gosto de ti”. Sabia que ele queria que ela pensasse que nos dias de Sol, as letras estariam lá na mesma, mas só eles os dois sabiam disso.
Quando ela chegou ao hotel, tinha uma mensagem à sua espera na recepção.
