quarta-feira, julho 30, 2008

O último voo

Não foi como todos os outros.
Claro.
São sempre todos diferentes.
Diferentes as paisagens que ele vê do céu, diferente o ar que respira, diferente o aroma das árvores quando as atravessa com a sua nave.
Mas desta vez foi diferente porque a levou com ele para que ela lhe mostrasse como se domina o mundo quando, na verdade, é ele que nos domina.
Para lhe mostrar que a sua voz, naquele vazio do céu, é a única que pode ouvir.
Cristalina como nunca a ouviu.
Para lhe mostrar que, sozinha naquele vazio do céu, tem a companhia de todos quantos vivem no seu coração.
No último voo, nem sequer levou a nave.
Foi um abraço que os levou.

segunda-feira, julho 28, 2008

...

nihil silentio utilius
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sexta-feira, julho 25, 2008

O nome de um dia

Todos os dias têm um nome que parece ter resultado de uma fórmula matemática que nos faz lembrar que são uma sequência linear.
Desses nomes, houve um que desapareceu e ninguém deu conta.
Continuam a ser os sete de sempre.
Mas houve um que ficou sem nome, porque ele não tem na sua memória a recordação que deveria ter.
Este dia passou a chamar-se esquecimento para que não se chamasse dor.

terça-feira, julho 22, 2008

l'objet trouvé

Cansado.
Mais uma vez... cansado.
Chegou a casa com uma flor na mão e esteve entretido durante algum tempo a mudar-lhe a cor da pétalas. Correu o todo arco íris. Inventou cores que ainda não foram vistas. Tonalidades que não imaginava que pudessem existir.
A dada altura parecia que não estava a segurar uma flor.
Também não a estava a oferecer.
Mais parecia que estava à espera que ela se transformasse em alguém.
Que se tranformasse nele próprio vezes sem conta.
Ou em alguém que lhe viesse dar o abraço que queria naquele momento.
Ou num balão gigante que o levasse daqui.

domingo, julho 20, 2008

all will be full of love (epílogo)

Chegou às paredes dos edifícios de uma forma que pôs artistas, sociólogos, psicólogos a discutir sobre os limites da noção de arte urbana.
Os grafitos que antes davam conta dos amores de apaixonados alguns metros ao redor das escolas, foram suplantados por materiais de construção que permitiam inscrever nas empenas do edifícios, poemas inteiros por toda a cidade.
Graças a células fotovoltaicas e peças de porcelana com comportamentos mecânicos diferenciados consoante a temperatura e a incidência do Sol, a mesma parede podia revelar quase um livro inteiro de poemas.
As ruas passaram a ser uma espécie de bibliotecas especializadas em poesia, também ela especializada: no amor.
A última vez que o vi, ele estava divido.
Por um lado, feliz. Porque um gesto tão simples teve repercussões bem ao jeito de um "efeito borboleta". E que melhor expressão para descrever esta espécie de demência que chegou a todos e a todo o lado.
Por outro, triste. Havia sintomas claros de banalização do seu gesto. Ou se quiserem, as palavras passaram a valer -em muitos casos- mais do que os actos.
Ontem chegou mesmo a irritar-se.
Foi ao restaurante onde mais vezes vai. Pode dizer-se até que é um cliente habitual.
Mas esteve mais de uma hora à espera da sopa, porque o cozinheiro não deixava sair da cozinha um único prato de sopa que não fosse passada pela varinha mágica e tivesse por cima um poema escrito com letrinhas de massa.
Uma hora!

quarta-feira, julho 16, 2008

all will be full of love (2.º acto)

Foram necessários alguns ajustes às falsas declarações de amor para que a cidade ­—pelo menos, aquela parte da cidade que frequenta assiduamente o sistema de transportes públicos— reagisse em termos comparáveis à do condutor do autocarro. Da linha 38, soube-o depois.

Não se sabe agora —mas saber-se-á mais tarde— que no final do ano, o dito condutor foi laureado com o prémio simpatia da câmara municipal onde trabalha e que foi a primeira vez que tal aconteceu. Nunca um funcionário da rede de transportes públicos tinha recebido esse, ou qualquer outro tipo de prémio.

As cartas deixaram de ser assinadas. Apenas dirigidas aos nomes que ia ouvindo chamar nas viagens que fazia nos autocarros. A estratégia passou a ser mais próxima da que usou com a carta para o condutor: declarações de amor, é certo, mas também manifestações de embaraço por parte de quem escrevia sem conseguir identificar-se. Em comum tinham todas algumas referências que davam a entender que tanto o que amava como aquele que era amado andaria pela casa dos 40 a 50 anos. Não só porque são quem mais usa os autocarros, mas sobretudo porque aquelas cartas não podia ser entendidas como uma espécie de "amizade a arder", como acontece em idades mais jovens. Algumas descrições físicas. Algumas manifestações do prazer que é a maneira de estar do amado ou da amada. Algumas referências a perfumes, outras a cores, algumas a sorrisos, outras ainda a ares tristes... Não se pense, pois, que isto foi tarefa que ele tenha realizado sem empenho. Pelo contrário: tornou-se um verdadeiro especialista na problemática dos desejos amorosos nessas idades. Observa incansavelmente todos os parceiros de viagem de autocarro que lhe possam servir de inspiração, sem que se deixe notar a sua intenção. Claro.

Ora, com essas alterações, começou finalmente a obter os resultados que pretendia.

As conversas nos autocarros mudaram. As pessoas passaram a observar-se de outra maneira. Algumas iniciavam conversas que se tornavam longas, quando o que pretendiam era visivelmente perguntar apenas: “és tu?”... "foste tu?"... "sou eu?"

Entretanto o impacto desta empresa tomou proporções que ele deixou de poder controlar.

Se é que algum dia ele as desejou controlar.

Primeiro aconteceu nos jornais locais. Artigos de opinião de autores que antes ninguém lia, passaram a ser lidos porque tentavam criar filosofias sobre o que estaria a acontecer na cidade, querendo tornar concreto algo que, afinal de contas, nem sequer existia, porque nem verdade era.

Depois foram os noticiários das televisões. Entrevistas a psicólogos, terapeutas do amor e amorólogos. Todo o tipo de especialista das ciências sociais e humanas e nunca um político.

Meses mais tarde, o Instituto Nacional de Estatística anunciou um protocolo com os Correios Nacionais, seguido de um avultado investimento em máquinas que detectavam odores. Isto, porque à evidência de ter aumentado o volume de cartas em percentagens inéditas, pretendeu-se quantificar aquelas que iam perfumadas para os seus destinos, na crença de que essas seriam mais de amor do que as outras. Certo, certo, é que já não é ele que as escreve...

segunda-feira, julho 07, 2008

all will be full of love (1.º acto)

Hoje ouviu vezes sem conta uma canção belíssima, de uma cantora islandesa belíssima, com uma voz belíssima.
De cada vez que ouvia a música os olhos dele brilhavam em tonalidade diferentes de castanho e verde. A dada altura esse brilho começou a misturar-se com aquele sorriso de quem se está a preparar para mais uma das travessuras a que já nos habituou.
Quando a primeira lágrima caiu na mesa pegou num bloco de folhas e, armado de uma caneta como se fosse a arma de amor mais eficaz, virou-se para mim e disse-me: "bem... vou infiltrar-me no sistema de transportes urbanos. Vou começar por aí."
Escreveu a bom escrever uma onze folhas.
Na verdade, os textos eram todos iguais e eram cartas de amor. Só uma era diferente.
As restantes eram cópias nas quais apenas mudava a primeira frase:

"Querida Júlia, sei agora que o nosso encontro não pode ter sido o último."

"Querido Mário...; Querida Amália...; Querida Celeste...; Querida Aurélia..."

O resto do texto não variava, tendo apenas cuidado com os pronomes, os artigos e o sexo:

"E venho dar-te razão da forma mais honesta que posso. Escrevendo-o. O meu coração não bate da mesma forma quando estou longe de ti e isso não tem a ver com a minha idade ou com a tua, como ontem chegamos a dizer. Quarenta e cinco anos, são suficientes para conhecer o meu corpo e a minha alma e me darem a segurança necessária para te dizer que é por amor que quero estar ao teu lado. Sempre."

Antes de sair de casa guardou uma das dez cartas num envelope e endereçou-o da seguinte forma: "Por favor, entregue este envelope ao condutor deste autocarro".
Nesse envelope ia uma falsa declaração de amor escrita por uma jovem polaca que vivia em Portugal desde os dois anos de idade. Uma carta que dava conta de uma paixão que foi crescendo ao longo de anos, num autocarro que fazia o mesmo percurso todos os dias, dedicada ao condutor "mais bonito e simpático" da rede de transportes públicos da cidade.
Essa carta não estava assinada.
Depois... Bem, depois foi vê-lo sair de casa a correr com o envelope e as outras dez cartas na mão para apanhar o primeiro autocarro que passasse naquela paragem.
Antes de mudar de autocarro -e sem que alguém desse conta- largou o envelope no banco atrás do condutor.
As outras dez falsas cartas de amor foi-as largando nos bancos de diferentes autocarros de diferentes percursos, abertas de forma a que se visse o nome a quem estavam dedicadas.
No dia seguinte apanhou o autocarro que tinha apanhado em primeiro lugar no dia anterior.
Como estava feliz e perfumado aquele condutor!
Como estava simpático para todas as jovens louras e ruivas de olhos azuis ou verdes!

sexta-feira, julho 04, 2008

o mundo escuro

Branco.
Pintou-o todo de branco sem deixar escapar qualquer detalhe.
As paredes, o chão, o tecto.
Tudo.
Tirou até a porta e os aros para preencher o vão com tijolos bem rebocados.
O mesmo com a janela.
Arrancou fios e interruptores.
Expulsou a mobília toda.
Tudo branco.
Tudo pintado de branco.
Tudo escuro, no entanto.
Fechado no quarto, sem luz, todo aquele esforço não serviu para que a luz inundasse o espaço.
Serviu apenas para que ele fosse o único a saber a cor do quarto.
Quem conseguir lá entrar, não saberá qual é a cor.
A não ser que lhe perguntem... e dêem crédito à sua palavra.
E ele não se tenha esquecido da cor.

quarta-feira, julho 02, 2008

un jour de mes beaux jours

Há uma semana atrás, ele desafiou-me para passear com ele. Disse-me que me ia levar ao sítio onde nasceu. Não só porque tinha saudades, mas porque que queria partilhar comigo um dos seus maiores segredos. Impôs-me apenas duas condições: que eu deixasse crescer a barba e fosse de chinelos.
Fomos ontem.
Só soube para onde íamos alguns minutos antes de partirmos.
Eu, de barba e chinelos.
Ele, com a imagem de sempre, mas com um livro na mão.

- Então... onde é? Onde vamos?
- Vamos a uma praia, neste livro. Vamos encontrar-nos com duas pessoas por quem tenho o maior respeito. É normal estarem a dialogar. Sempre que estive com elas, estavam a dialogar. Quase sempre sobre arquitectura. Nunca as interrompi. Por isso te peço que também não o faças. Limita-te a acompanhá-los. Como verás, é uma praia lindíssima. Um daqueles lugares que jamais te esquecerás.
- E tem nome, o lugar onde fica essa praia?
- Tem o nome que lhe quiseres dar, mas é conhecido por "Eupalinos ou l'Architect". Mas eu vou levar-te directamente para a praia, se não te importas. Afinal de contas, é isso que te quero mostrar. O sítio onde nasci....
- E porquê a barba e os chinelos?
- Porque todos usam barba e chinelos nesse lugar... Chegámos:

...

SOCRATE
L’adolescence est singulièrement située au milieu des chemins... Un jour de mes beaux jours, mon cher PHèDRE, j’ai connu une étrange hésitation entre mes âmes. Le hasard, dans mes mains, vint placer l’objet du monde le plus ambigu. Et les réflexions infinies qu’il me fit faire, pouvaient aussi bien me conduire à ce philosophe que je fus, qu’à l’artiste que je n’ai pas été...


PHÈDRE
C’est un objet qui t’a sollicité si diversement ?


SOCRATE
Oui. Un pauvre objet, une certaine chose que j’ai trouvée, en me promenant. Elle fut l’origine d’une pensée qui se divisait d’ellemême entre le construire et le connaître.


PHÈDRE
Merveilleux objet! Objet comparable à ce coffret de Pandore où tous les biens et tous les maux étaient ensemble contenus!... Faismoi voir cet objet, comme le grand Homère nous fait admirer le bouclier du fils de Pélée!


SOCRATE
Tu penses bien qu’il est indescriptible... Son importance est inséparable de l’embarras qu’il me causa.


PHÈDRE
Explique-toi plus abondamment.


SOCRATE
Eh bien, PHèDRE, voici ce qu’il en fut: je marchais sur le bord même de la mer, je suivais une plage sans fin... Ce n’est pas un rêve que je te raconte. J’allais je ne sais où, trop plein de vie, à demi enivré par ma jeunesse. L’air, délicieusement rude et pur, pesant sur mon visage et sur mes membres, m’opposait un héros impalpable qu’il fallait vaincre pour avancer. Et cette résistance toujours repoussée faisait de moi-même, à chaque pas, un héros imaginaire, victorieux du vent, et riche de forces toujours renaissantes, toujours égales à la puissance de l’invisible adversaire... C’est là précisément la jeunesse. Je foulais fortement le bord sinueux, durci et rebattu par le flot. Toutes choses, autour de moi, étaient simples et pures : le ciel, le sable, l’eau. Je regardais venir du large ces grandes formes qui semblent courir depuis les rives de Libye, transportant leurs sommets étincelants, leurs creuses vallées, leur implacable énergie, de l’Afrique jusqu’à l’Attique, sur l’immense étendue liquide. Elles trouvent enfin leur obstacle, et le socle même de l’Hellas; elles se rompent sur cette base sous-marine; elles reculent en désordre vers l’origine de leur durée. Les vagues, à ce point, détruites et confondues, mais ressaisies par celles qui les suivent, on dirait que les figures de l’onde se combattent. Les gouttes innombrables brisent leurs chaînes, une poudre étincelante s’élève. On voit de blancs cavaliers sauter par-delà eux-mêmes, et tous ces envoyés de la mer inépuisable périr et reparaître, avec un tumulte monotone, sur une pente molle et presque imperceptible, que tout leur emportement, quoique venu de l’extrême horizon, jamais toutefois ne saurait gravir... Ici, l’écume, jetée au plus loin par le flot le plus haut, forme des tas jaunâtres et irisés qui crèvent au soleil, ou que le vent chasse et disperse, le plus drôlement du monde, comme bêtes épouvantées par le bond brusque de la mer. Mais moi, je jouissais de l’écume naissante et vierge... Elle est d’une douceur étrange, au contact. C’est un lait tout tiède, et aéré, qui vient avec une violence voluptueuse, inonde les pieds nus, les abreuve, les dépasse, et redescend sur eux, en gémissant d’une voix qui abandonne le rivage et se retire en elle-même; cependant que l’humaine statue, présente et vivante, s’enfonce un peu plus dans le sable qui l’entraîne; et cependant que l’âme s’abandonne à cette musique si puissante et si fine, s’apaise, et la suit éternellement.


PHÈDRE

Tu me fais revivre. O langage chargé de sel, et paroles véritablement marines!


SOCRATE
Je me suis laissé parler... Nous avons l’éternité pour discourir sur le temps. Nous sommes ici pour épuiser nos esprits, à la manière des Danaïdes.


PHÈDRE
L’objet ?


SOCRATE
L’objet gît sur le bord où je marchais, où je me suis arrêté, où je t’ai parlé longuement d’un spectacle que tu connais aussi bien que moi, mais qui, rappelé dans ce lieu, emprunte une sorte de nouveauté de ce fait qu’il est à jamais disparu. Attends donc, et dans quelques mots, je vais trouver ce que je ne cherchais pas.


PHÈDRE
Nous sommes bien toujours sur le rivage de la mer?


SOCRATE
Nécessairement. Cette frontière de Neptune et de la Terre, toujours disputée par les divinités rivales, est le lieu du commerce le plus funèbre, le plus incessant. Ce que rejette la mer, ce que la terre ne sait pas retenir, les épaves énigmatiques ; les membres affreux des navires disloqués, aussi noirs que le charbon, et tels que si les eaux salées les avaient brûlés; les charognes horriblement becquetées, et toutes lissées par les flots; les herbages élastiques arrachés par les tempêtes aux pâtis transparents des troupeaux de Protée; les monstres dégonflés, aux couleurs froides et mourantes ; toutes les choses enfin que la fortune livre aux fureurs littorales, et au litige sans issue de l’onde avec le rivage, sont là portées et déportées; élevées, rabaissées; prises, perdues, reprises selon l’heure et le jour; tristes témoins de l’indifférence des destinées, ignobles trésors, et les jouets d’un échange perpétuel comme il est stationnaire...


PHÈDRE
Et c’est là que tu as trouvé?


SOCRATE
Là même. J’ai trouvé une de ces choses rejetées par la mer; une chose blanche, et de la plus pure blancheur; polie, et dure, et douce, et légère. Elle brillait au soleil, sur le sable léché, qui est sombre, et semé d’étincelles. Je la pris; je soufflai sur elle; je la frottai sur mon manteau, et sa forme singulière arrêta toutes mes autres pensées. Qui t’a faite? pensai-je. Tu ne ressembles à rien, et pourtant tu n’es pas informe. Es-tu le jeu de la nature, ô privée de nom, et arrivée à moi, de par les dieux, au milieu des immondices que la mer a répudiées cette nuit?


PHÈDRE
De quelle grandeur était cet objet?


SOCRATE
Gros à peu près comme mon poing.


PHÈDRE
Et de quelle matière?


SOCRATE
De la même matière que sa forme: matière à doutes. C’était peutêtre un ossement de poisson bizarrement usé par le frottement du sable fin sous les eaux? Ou de l’ivoire taillé pour je ne sais quel usage, par un artisan d’au delà les mers? Qui sait?... Divinité, peut-être, périe avec le même vaisseau qu’elle était faite pour préserver de sa perte? Mais qui donc était l’auteur de ceci? Futce le mortel obéissant à une idée, qui, de ses propres mains poursuivant un but étranger à la matière qu’il attaque, gratte, retranche, ou rejoint; s’arrête et juge; et se sépare enfin de son ouvrage, — quelque chose lui disant que l’ouvrage est achevé?... Ou bien, n’était-ce pas l’œuvre d’un corps vivant, qui, sans le savoir, travaille de sa propre substance, et se forme aveuglément ses organes et ses armures, sa coque, ses os, ses défenses; faisant participer sa nourriture, puisée autour de lui, à la construction mystérieuse qui lui assure quelque durée?

Mais, peut-être, ce n’était que le fruit d’un temps infini... Moyennant l’éternel travail des ondes marines, le fragment d’une roche, à force d’être roulé et heurté de toutes parts, si la roche est d’une matière inégalement dure, et ne risque à la longue de s’arrondir, peut bien prendre quelque apparence remarquable. Il n’est pas entièrement impossible, un morceau de marbre ou de pierre tout informe étant confié à l’agitation permanente des eaux, qu’il en soit retiré quelque jour, par un hasard d’une autre espèce, et qu’il affecte maintenant la ressemblance d’Apollon. Je veux dire que le pêcheur qui a quelque idée de cette face divine, le reconnaîtra sur ce marbre tiré des eaux ; mais quant à la chose elle-même, le visage sacré lui est une forme passagère d’entre la famille des formes que l’action des mers lui doit imposer. Les siècles ne coûtant rien, qui en dispose, change ce qu’il veut en ce qu’il veut.

...