quarta-feira, julho 16, 2008

all will be full of love (2.º acto)

Foram necessários alguns ajustes às falsas declarações de amor para que a cidade ­—pelo menos, aquela parte da cidade que frequenta assiduamente o sistema de transportes públicos— reagisse em termos comparáveis à do condutor do autocarro. Da linha 38, soube-o depois.

Não se sabe agora —mas saber-se-á mais tarde— que no final do ano, o dito condutor foi laureado com o prémio simpatia da câmara municipal onde trabalha e que foi a primeira vez que tal aconteceu. Nunca um funcionário da rede de transportes públicos tinha recebido esse, ou qualquer outro tipo de prémio.

As cartas deixaram de ser assinadas. Apenas dirigidas aos nomes que ia ouvindo chamar nas viagens que fazia nos autocarros. A estratégia passou a ser mais próxima da que usou com a carta para o condutor: declarações de amor, é certo, mas também manifestações de embaraço por parte de quem escrevia sem conseguir identificar-se. Em comum tinham todas algumas referências que davam a entender que tanto o que amava como aquele que era amado andaria pela casa dos 40 a 50 anos. Não só porque são quem mais usa os autocarros, mas sobretudo porque aquelas cartas não podia ser entendidas como uma espécie de "amizade a arder", como acontece em idades mais jovens. Algumas descrições físicas. Algumas manifestações do prazer que é a maneira de estar do amado ou da amada. Algumas referências a perfumes, outras a cores, algumas a sorrisos, outras ainda a ares tristes... Não se pense, pois, que isto foi tarefa que ele tenha realizado sem empenho. Pelo contrário: tornou-se um verdadeiro especialista na problemática dos desejos amorosos nessas idades. Observa incansavelmente todos os parceiros de viagem de autocarro que lhe possam servir de inspiração, sem que se deixe notar a sua intenção. Claro.

Ora, com essas alterações, começou finalmente a obter os resultados que pretendia.

As conversas nos autocarros mudaram. As pessoas passaram a observar-se de outra maneira. Algumas iniciavam conversas que se tornavam longas, quando o que pretendiam era visivelmente perguntar apenas: “és tu?”... "foste tu?"... "sou eu?"

Entretanto o impacto desta empresa tomou proporções que ele deixou de poder controlar.

Se é que algum dia ele as desejou controlar.

Primeiro aconteceu nos jornais locais. Artigos de opinião de autores que antes ninguém lia, passaram a ser lidos porque tentavam criar filosofias sobre o que estaria a acontecer na cidade, querendo tornar concreto algo que, afinal de contas, nem sequer existia, porque nem verdade era.

Depois foram os noticiários das televisões. Entrevistas a psicólogos, terapeutas do amor e amorólogos. Todo o tipo de especialista das ciências sociais e humanas e nunca um político.

Meses mais tarde, o Instituto Nacional de Estatística anunciou um protocolo com os Correios Nacionais, seguido de um avultado investimento em máquinas que detectavam odores. Isto, porque à evidência de ter aumentado o volume de cartas em percentagens inéditas, pretendeu-se quantificar aquelas que iam perfumadas para os seus destinos, na crença de que essas seriam mais de amor do que as outras. Certo, certo, é que já não é ele que as escreve...

2 comentários:

Duarte disse...

Muitas vezes custa encarar de frente a realidade da vida.
Há dias ao chegar a casa olhei, como sempre, para a caixa do correio e não tinha nada. Quase nunca tem nada, e se tem algo é a correspondência daqueles que te sacam o dinheiro, bancos, companhias do gás, da electricidade, ou alguma ONG a pedir dinheiro, só a pedir ou a cobrar.
Hoje, lamentavelmente, já não chegam cartas para dar amor: como na canção. Terei que escrevê-las eu...?

Abraços

Juani disse...

Hoy ya no hay cartas, hay emails, moviles y blogs, donde la gente dice sus sentimientos
que pases un feliz fin de semana