segunda-feira, abril 28, 2008

Os sonhos a cores

Ao final da tarde ele já tinha reunido 2.820.285.082.126 lápis de cor.
O mar estava calmo, como costuma estar nos finais de tarde de Setembro e a praia já estava vazia.
Como tinha muito tempo à sua frente, pegou na nave espacial e fez voos junto à areia de modo a criar uma superfície lisa e sem sombras.
Um a um, espetou um número considerável de lápis e escreveu o nome dela vezes sem conta.
O efeito era lindíssimo, com o poente do Sol a criar sombras enormes e a fazer brilhar todas aquelas cores.
Mas, claro, sobravam imensos lápis e o resto do areal estava disponível...
Como ele não tinha ideia de quando ela regressaria, começou a espetar mais lápis. Escreveu o poema mais bonito que ela lhe recitou uma vez, de noite, quando fugiram em silêncio de um sonho que tornaram realidade.
Na manhã seguinte já não se distinguia a areia.
Aquela mancha de cor substituiu o areal, com desenhos que pareciam não ter lógica.
Enfim.
Mas que lógica tem aquele poema?

quarta-feira, abril 16, 2008

Como o carnaval acaba... todos os anos

Ao princípio ele não deu grande importância à forma como sentia a ausência dela, mas agora que tem as mãos ensanguentadas, é impossível continuar a ignorar algo que, ao fim e ao cabo, é uma evidência.
Tudo aconteceu um dia quando agarrou o Tempo com toda a sua força para a levar para um dos seus melhores dias. Para qualquer um dos dias que ela lhe confessou a sua felicidade. Mas nesse momento sentiu a forma cruel como ele tem a capacidade de terminar com um pouco de nós todos os dias; como todos os dias termina com um pouco do mundo e como todos os dias começa com o pouco do mundo que acaba. Assim... tal como o Carnaval acaba todos os anos.
Foi como se um dos seus ponteiros rodasse suavemente nas mãos dele até que o golpe fosse suficientemente fundo para que ficasse claro que ele tem vontade própria e não obedece senão aos seus caprichos.
Mas foi apenas um dos ponteiros que rodou.

quinta-feira, abril 10, 2008

Como se não houvesse amanhã (II)

Vou lançar-me no ar sem saber se o vento me leva na tua direcção.
Mas desejo tanto que no final pouse entre os dedos da tua mão esquerda. Que sussurres no meu ouvido que é a nós que o Tempo obedece. Que é ao nosso ritmo que ele vai passar a andar.
Desejo tanto que a tua mão direita me molde num dos teus sorrisos e o Sol me ilumine para eu me ver como se fosse a tua sombra.
Desejo tanto, mas tanto, que os meus olhos digam tudo por mim, para reservar os meus lábios apenas para respirar ao teu lado.

terça-feira, abril 08, 2008

Como se não houvesse amanhã (I)

Vou subir ao cimo do teu corpo e nele espraiar-me como se fosse terra virgem;
Vou beber cada segundo como se do último se tratasse;
Vou viajar pelo mundo e descobrir novos continentes;
Vou aprender a falar todas as línguas, compreender todas as culturas e saborear todos os sabores;
Vou adoptar a criança mais pobre de todas e dar-lhe tudo o que tenho;
Vou descobrir a estrada que conduz ao céu e pedir aos anjos que salvem a humanidade;
Vou levar-te comigo para onde vão aqueles que não sabem chorar;
Vou aprender a tecer casulos e oferecê-los aos que se sentem sós;
Vou fazer tudo aquilo que a imaginação permite e o Homem não consente...e então morrerei feliz!

sexta-feira, abril 04, 2008

Os livros de areia

Desta vez ele não foi de carro.
A polícia já estava prevenida e não ia permitir que ele subisse outra vez com o carro até ao 3.º andar e acelerasse até ao fundo do corredor.
Foi na nave espacial e pairou à frente da penúltima janela do edifício.
Quase de certeza que era essa a janela do gabinete dela.
Quando ela viu no reflexo do monitor do computador uma forma estranha a acenar de forma agitada, abriu a janela e não resistiu: saltou.
Saltou para a asa esquerda daquele objecto que voava porque eles pensavam que voava. Tão só por isso.
Aceleraram a fundo.
Passaram pelas copas das árvores mais altas.
Evitaram os ninhos.
Subiram rapidamente para pegar em pedaços de algodão doce que se disfarçavam de nuvens e comeram-nos contra o vento para que os lábios ficassem brancos e doces.
No final da tarde pousaram numa praia com a água cor-de-laranja e areia feita de pequenos livros com apenas uma letra e passaram o resto do tempo a reunir as páginas que contavam a história deles.

quarta-feira, abril 02, 2008

O mundo num dia

Há dias serenos cujo ar nos inebria
Há dias tristes que nos toldam a razão de viver
Há dias molhados, como os teus beijos, que nos devolvem a harmonia
Há dias de sol, que nos fazem renascer.

…e há dias assim, como este, baços como fumo, que se vão moldando à vontade divina e nos fazem percorrer o mundo todo num fragmento de uma já curta existência, como se de uma cruzada proibida se tratasse.