Ao final da tarde ele já tinha reunido 2.820.285.082.126 lápis de cor.
O mar estava calmo, como costuma estar nos finais de tarde de Setembro e a praia já estava vazia.
Como tinha muito tempo à sua frente, pegou na nave espacial e fez voos junto à areia de modo a criar uma superfície lisa e sem sombras.
Um a um, espetou um número considerável de lápis e escreveu o nome dela vezes sem conta.
O efeito era lindíssimo, com o poente do Sol a criar sombras enormes e a fazer brilhar todas aquelas cores.
Mas, claro, sobravam imensos lápis e o resto do areal estava disponível...
Como ele não tinha ideia de quando ela regressaria, começou a espetar mais lápis. Escreveu o poema mais bonito que ela lhe recitou uma vez, de noite, quando fugiram em silêncio de um sonho que tornaram realidade.
Na manhã seguinte já não se distinguia a areia.
Aquela mancha de cor substituiu o areal, com desenhos que pareciam não ter lógica.
Enfim.
Mas que lógica tem aquele poema?
segunda-feira, abril 28, 2008
quarta-feira, abril 16, 2008
Como o carnaval acaba... todos os anos
Ao princípio ele não deu grande importância à forma como sentia a ausência dela, mas agora que tem as mãos ensanguentadas, é impossível continuar a ignorar algo que, ao fim e ao cabo, é uma evidência.
Tudo aconteceu um dia quando agarrou o Tempo com toda a sua força para a levar para um dos seus melhores dias. Para qualquer um dos dias que ela lhe confessou a sua felicidade. Mas nesse momento sentiu a forma cruel como ele tem a capacidade de terminar com um pouco de nós todos os dias; como todos os dias termina com um pouco do mundo e como todos os dias começa com o pouco do mundo que acaba. Assim... tal como o Carnaval acaba todos os anos.
Foi como se um dos seus ponteiros rodasse suavemente nas mãos dele até que o golpe fosse suficientemente fundo para que ficasse claro que ele tem vontade própria e não obedece senão aos seus caprichos.
Mas foi apenas um dos ponteiros que rodou.
Tudo aconteceu um dia quando agarrou o Tempo com toda a sua força para a levar para um dos seus melhores dias. Para qualquer um dos dias que ela lhe confessou a sua felicidade. Mas nesse momento sentiu a forma cruel como ele tem a capacidade de terminar com um pouco de nós todos os dias; como todos os dias termina com um pouco do mundo e como todos os dias começa com o pouco do mundo que acaba. Assim... tal como o Carnaval acaba todos os anos.
Foi como se um dos seus ponteiros rodasse suavemente nas mãos dele até que o golpe fosse suficientemente fundo para que ficasse claro que ele tem vontade própria e não obedece senão aos seus caprichos.
Mas foi apenas um dos ponteiros que rodou.
quinta-feira, abril 10, 2008
Como se não houvesse amanhã (II)
Vou lançar-me no ar sem saber se o vento me leva na tua direcção.
Mas desejo tanto que no final pouse entre os dedos da tua mão esquerda. Que sussurres no meu ouvido que é a nós que o Tempo obedece. Que é ao nosso ritmo que ele vai passar a andar.
Desejo tanto que a tua mão direita me molde num dos teus sorrisos e o Sol me ilumine para eu me ver como se fosse a tua sombra.
Desejo tanto, mas tanto, que os meus olhos digam tudo por mim, para reservar os meus lábios apenas para respirar ao teu lado.
Mas desejo tanto que no final pouse entre os dedos da tua mão esquerda. Que sussurres no meu ouvido que é a nós que o Tempo obedece. Que é ao nosso ritmo que ele vai passar a andar.
Desejo tanto que a tua mão direita me molde num dos teus sorrisos e o Sol me ilumine para eu me ver como se fosse a tua sombra.
Desejo tanto, mas tanto, que os meus olhos digam tudo por mim, para reservar os meus lábios apenas para respirar ao teu lado.
terça-feira, abril 08, 2008
Como se não houvesse amanhã (I)
Vou subir ao cimo do teu corpo e nele espraiar-me como se fosse terra virgem;
Vou beber cada segundo como se do último se tratasse;
Vou viajar pelo mundo e descobrir novos continentes;
Vou aprender a falar todas as línguas, compreender todas as culturas e saborear todos os sabores;
Vou adoptar a criança mais pobre de todas e dar-lhe tudo o que tenho;
Vou descobrir a estrada que conduz ao céu e pedir aos anjos que salvem a humanidade;
Vou levar-te comigo para onde vão aqueles que não sabem chorar;
Vou aprender a tecer casulos e oferecê-los aos que se sentem sós;
Vou fazer tudo aquilo que a imaginação permite e o Homem não consente...e então morrerei feliz!
Vou beber cada segundo como se do último se tratasse;
Vou viajar pelo mundo e descobrir novos continentes;
Vou aprender a falar todas as línguas, compreender todas as culturas e saborear todos os sabores;
Vou adoptar a criança mais pobre de todas e dar-lhe tudo o que tenho;
Vou descobrir a estrada que conduz ao céu e pedir aos anjos que salvem a humanidade;
Vou levar-te comigo para onde vão aqueles que não sabem chorar;
Vou aprender a tecer casulos e oferecê-los aos que se sentem sós;
Vou fazer tudo aquilo que a imaginação permite e o Homem não consente...e então morrerei feliz!
sexta-feira, abril 04, 2008
Os livros de areia
Desta vez ele não foi de carro.
A polícia já estava prevenida e não ia permitir que ele subisse outra vez com o carro até ao 3.º andar e acelerasse até ao fundo do corredor.
Foi na nave espacial e pairou à frente da penúltima janela do edifício.
Quase de certeza que era essa a janela do gabinete dela.
Quando ela viu no reflexo do monitor do computador uma forma estranha a acenar de forma agitada, abriu a janela e não resistiu: saltou.
Saltou para a asa esquerda daquele objecto que voava porque eles pensavam que voava. Tão só por isso.
Aceleraram a fundo.
Passaram pelas copas das árvores mais altas.
Evitaram os ninhos.
Subiram rapidamente para pegar em pedaços de algodão doce que se disfarçavam de nuvens e comeram-nos contra o vento para que os lábios ficassem brancos e doces.
No final da tarde pousaram numa praia com a água cor-de-laranja e areia feita de pequenos livros com apenas uma letra e passaram o resto do tempo a reunir as páginas que contavam a história deles.
A polícia já estava prevenida e não ia permitir que ele subisse outra vez com o carro até ao 3.º andar e acelerasse até ao fundo do corredor.
Foi na nave espacial e pairou à frente da penúltima janela do edifício.
Quase de certeza que era essa a janela do gabinete dela.
Quando ela viu no reflexo do monitor do computador uma forma estranha a acenar de forma agitada, abriu a janela e não resistiu: saltou.
Saltou para a asa esquerda daquele objecto que voava porque eles pensavam que voava. Tão só por isso.
Aceleraram a fundo.
Passaram pelas copas das árvores mais altas.
Evitaram os ninhos.
Subiram rapidamente para pegar em pedaços de algodão doce que se disfarçavam de nuvens e comeram-nos contra o vento para que os lábios ficassem brancos e doces.
No final da tarde pousaram numa praia com a água cor-de-laranja e areia feita de pequenos livros com apenas uma letra e passaram o resto do tempo a reunir as páginas que contavam a história deles.
quarta-feira, abril 02, 2008
O mundo num dia
Há dias serenos cujo ar nos inebria
Há dias tristes que nos toldam a razão de viver
Há dias molhados, como os teus beijos, que nos devolvem a harmonia
Há dias de sol, que nos fazem renascer.
…e há dias assim, como este, baços como fumo, que se vão moldando à vontade divina e nos fazem percorrer o mundo todo num fragmento de uma já curta existência, como se de uma cruzada proibida se tratasse.
Há dias tristes que nos toldam a razão de viver
Há dias molhados, como os teus beijos, que nos devolvem a harmonia
Há dias de sol, que nos fazem renascer.
…e há dias assim, como este, baços como fumo, que se vão moldando à vontade divina e nos fazem percorrer o mundo todo num fragmento de uma já curta existência, como se de uma cruzada proibida se tratasse.
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