De cada vez que ouvia a música os olhos dele brilhavam em tonalidade diferentes de castanho e verde. A dada altura esse brilho começou a misturar-se com aquele sorriso de quem se está a preparar para mais uma das travessuras a que já nos habituou.
Quando a primeira lágrima caiu na mesa pegou num bloco de folhas e, armado de uma caneta como se fosse a arma de amor mais eficaz, virou-se para mim e disse-me: "bem... vou infiltrar-me no sistema de transportes urbanos. Vou começar por aí."
Escreveu a bom escrever uma onze folhas.
Na verdade, os textos eram todos iguais e eram cartas de amor. Só uma era diferente.
As restantes eram cópias nas quais apenas mudava a primeira frase:
"Querida Júlia, sei agora que o nosso encontro não pode ter sido o último."
"Querido Mário...; Querida Amália...; Querida Celeste...; Querida Aurélia..."
"Querido Mário...; Querida Amália...; Querida Celeste...; Querida Aurélia..."
O resto do texto não variava, tendo apenas cuidado com os pronomes, os artigos e o sexo:
"E venho dar-te razão da forma mais honesta que posso. Escrevendo-o. O meu coração não bate da mesma forma quando estou longe de ti e isso não tem a ver com a minha idade ou com a tua, como ontem chegamos a dizer. Quarenta e cinco anos, são suficientes para conhecer o meu corpo e a minha alma e me darem a segurança necessária para te dizer que é por amor que quero estar ao teu lado. Sempre."
Antes de sair de casa guardou uma das dez cartas num envelope e endereçou-o da seguinte forma: "Por favor, entregue este envelope ao condutor deste autocarro".
Nesse envelope ia uma falsa declaração de amor escrita por uma jovem polaca que vivia em Portugal desde os dois anos de idade. Uma carta que dava conta de uma paixão que foi crescendo ao longo de anos, num autocarro que fazia o mesmo percurso todos os dias, dedicada ao condutor "mais bonito e simpático" da rede de transportes públicos da cidade.
Essa carta não estava assinada.
Depois... Bem, depois foi vê-lo sair de casa a correr com o envelope e as outras dez cartas na mão para apanhar o primeiro autocarro que passasse naquela paragem.
Antes de mudar de autocarro -e sem que alguém desse conta- largou o envelope no banco atrás do condutor.
As outras dez falsas cartas de amor foi-as largando nos bancos de diferentes autocarros de diferentes percursos, abertas de forma a que se visse o nome a quem estavam dedicadas.
No dia seguinte apanhou o autocarro que tinha apanhado em primeiro lugar no dia anterior.
Como estava feliz e perfumado aquele condutor!
Como estava simpático para todas as jovens louras e ruivas de olhos azuis ou verdes!

3 comentários:
volvistes a ser tu esta si me ha gustado mucho
saluditos
:D Besso, Juani. Obrigado!
Muito bom, mesmo muito bom. Isto é outra coisa!
Esta mudança de atitude, a tão positiva, está mais acorde com aquilo ao que nos tinhas habituado.
Carrega forte no acelerador que esta vida é efémera e vale a pena viver intensamente cada momento.
Gostei muito... a chama do amor aqueceu o frasco do perfume, e noto que fluem bons olores.
Un grande abraço
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