terça-feira, maio 27, 2008

As estrelas de papel

Já o tinha visto a recolher as suas lágrimas naquele instrumento que só a custo posso chamar de caneta, mas com o qual ele consegue escrever alguns parágrafos em folhas lisas de papel branco.
Sei que quando usa essa espécie caneta aproveita todas as lágrimas - as que chora de dor e as que chora não sofrendo - e sei também que dedica as poucas linhas que consegue escrever, a celebrar as suas amizades quando mais lhes sente o seu pulsar no coração.
Certa vez vi-o, decidido, durante dias a fio, a transformar uma cidade num céu. Confesso que me deixei encantar por aquele gesto pueril. Confesso até que gostava de o ter acompanhado naquela tarefa que só em sonhos parece poder acontecer.
Cobriu então o chão da maior divisão da casa com folhas de papel, em regime cuidadosamente ortogonal como se fosse a planta de uma qualquer cidade hipodâmica.
Nos dias seguintes deambulou sem regra por cima daquela cidade e deixou que as suas lágrimas pingassem de alto sobre as folhas. Ao fim de uma semana, armado de lápis de todas as cores, lançou-se ao chão e desenhou os contornos de todos os pingos que tinham deformado suavemente as folhas.
Depois de desenhados todos os contornos, aquele conjunto de folhas perdeu a sua ordem, porque aquilo que antes representava o chão, transformou-se numa espécie de céu com estrelas de todas as cores e tamanhos.
Tudo isto se passou há cerca de dois anos, mas ainda hoje, antes de dormir, passeia-se descalço naquela divisão da casa com o sorriso de quem tem o poder de voar quando quer e inverter as lógicas do cosmos.
De vez em quando diz para si próprio: "só porque o sentes, não quer dizer que esteja aqui".
E os seus olhos ficam brilhantes como se deles fosse nascer a estrela que perdeu.

3 comentários:

Juani disse...

Se muy bien lo que quieres decir, mi amor lo perdi ya hace casi 7 años, y hay dias que lo siento tan fuerte como si estuviese a mi lado
tan dentro de mi que lo puedo incluso sentir y oler
saluditos

Duarte disse...

Uma grande carga de emoções, que expões em fluida descrição.
Quase sempre recordar é viver, mas o reviver certos momentos é dilacerar: corta com o passado, se podes, e vive intensamente cada momento duma nova vida, compensar-te-á.

alex disse...

belíssimo texto! muito bem escrito e descrito.