terça-feira, maio 13, 2008

A apanhadora de conchas

No dia em que ela somou mais um mês aos seus anos, ele achou que devia celebrar a vida, não apenas a dela, mas a Vida. A ideia de como o fazer foi-lhe dada na noite anterior, numa situação em que, por magia, as sombras tinham mais vida do que aqueles que davam vida às sombras. Decidiu então trocar de posição com a sua sombra durante esse dia. Depois de um abraço que ele e a sua sombra deram exactamente ao meio-dia, passou a gozar de todas as sensações que a sua sombra antes tivera gozado. Nesse dia, ele pode ser relva, água, calma e agitada, pode ser de qualquer cor e de qualquer material. Pode estar em duas ruas ao mesmo tempo, desde que estas fizessem uma esquina. Pode ser o próprio céu, subir a árvores e ser um ramo. Pode estar dentro e fora dos edifícios. Pode ser o corpo de qualquer pessoa que se lhe atravessasse à frente. Pode subir a qualquer prédio e espreitar pelas janelas. Pode gozar com os comboios que o tentavam magoar quando se deitava no carris.
Antes que o dia acabasse, cansado, foi deitar-se à frente do banco de jardim que passou a ser seu sem que deixasse de ser de quem achasse que tinha o direito de o ter também.
Ali, deitado no chão a olhar o vulto que lhe dava ânimo, feito tijolo da calçada, foi pisado por todos quantos por ali passavam sem que se magoasse com isso.
Entretanto passou a Sophia e teve de terminar o festim que estava a celebrar desde essa manhã, porque ela o olhou nos olhos e lhe disse que não era assim que ele devia estar a comemorar: devia andar a apanhar conchas e escrever nelas os nomes de todos os que o amam.

1 comentário:

Juani disse...

en mi opinion, no se debe pretender ser mas de lo que se es, y quererse uno mismo,Por cierto ya descubri el segredo
saluditos