Cansado.
Visivelmente cansado, deixou esquecido, em cima sua mesa, o bloco de notas onde escreve e desenha pensamentos que costuma guardar apenas para si.
Ficou esquecido, aberto na página onde escreveu apenas duas frases:
"Felizmente, como qualquer outra forma de arte, a vida presta-se a interpretações ambíguas. Sem muito esforço, o contrário do que sentimos, dizemos e fazemos é, também, verdade."
Poderá parecer um paradoxo escrever isto num dia em que ele, mesmo que tentasse, não conseguiria disfarçar o prazer que o invadiu numa luta desigual.
Deliciosamente desigual.
Não consigo descrever esse dia -ou o que ele fez com que esse dia fosse- melhor do que o fez um poeta francês, quando fez um Sócrates imaginário relatar um dos seus melhores dias -"un jour de mes beaux jours..."- a um parceiro caminhante, demonstrando que as linhas da sua vida partiram todas daquele dia.
Tal como este filósofo imaginário, também ele sabia que tinha -e tem sempre que quer- o poder de fazer uma pausa ou de continuar a andar.
De ficar "suspenso" ou então a ganhar asas e voar, bastando para isso que encontre uma parte de si no momento e no "lugar" certo.
Nesse dia encontrou-a. Ele sabia que a ia encontrar.
Como todas as pessoas, ele tem em si todas as pessoas que conhece e todos os sítios que visita... mas isso também outro poeta já o disse de uma forma bem mais eloquente do que eu poderia fazer aqui.
Mas o contrário desta sentença também é verdade.
É bom acreditar que seja: que um pouco de nós está em todos os lugares onde estivemos e em todos os corações que visitamos.
Mesmo desconhecendo o estado em que esses nossos pedaços se encontram quando os encontramos, acreditem, é bom encontrá-los.
Pois a ele, mesmo consciente desta dúvida, não o vi menos tranquilo quando sentiu que ia ao encontro de si.
De uma parte de si.
Pelo contrário.
Ele reúne muito mais do que dois sentimentos. Como todas as pessoas.
E sente-os de todas as maneiras que consegue imaginar.
E poder ver-se a si próprio com os olhos de outro é uma oportunidade rara que jamais se pode dispensar.
Por isso ele terá escrito que é uma forma de arte, esta tarefa de viver.
E a imagem que me ocorre para o ilustrar, é a do seu gato a procurar o seu ombro ao final da tarde e adormecerem os dois em posição fetal na cama ainda raiada de Sol. Ou a fingirem que dormem.
Sob as suas mãos e sob o corpo do gato, uma página manuscrita de um moleskine preto que não consigo ler.
sexta-feira, junho 06, 2008
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2 comentários:
quien fuese ese gato
saluditos
Gostei muito.
Tens um bom controle da palavra e a sensibilidade que caracteriza uma mulher eloquente.
A narração é fluida e cativa.
Os gatos, mesmo sendo felinos, e independentes, são grandes pacificadores quando querem entrar em letargo, no seu rum rum.
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